Por Percival Puggina
Recebi longa carta de uma leitora indignada comigo. Até aí pouco se me dá. Indignada ela, indignado eu, “mano a mano hemos quedado”, como dizem os castelhanos. O que importa em tal mensagem é que essa ira decorre da minha “tentativa indecente de vincular Lula a Fidel Castro, coisa que jamais existiu”, principalmente porque, como eu bem deveria saber, “desde sua eleição, Lula nunca mais foi a Cuba”.

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         Só para recordar. Em dezembro de 2000, ocorreu uma badalada viagem de 200 militantes, promovida pelo PT à Disneylândia das esquerdas, com direito a banhos de mar, visita à Escola Lênin, prolongada companhia de Lula e jantar com Fidel Castro. Na Praia de Varadero, Lula se emocionou ao falar de sua admiração por Fidel. Seus olhos ficaram vermelhos quando mencionou o “orgulho de ser solidário a Cuba”. 

         Só para recordar. A frase “Obrigado, Fidel, por vocês existirem” foi pronunciada por Lula, em dezembro de 2001, na cidade de Havana, por ocasião da 10ª edição do Foro de São Paulo. Não satisfeito com tão derretida manifestação de afeto, Lula ainda resolveu branquear e arredondar o discurso com esta pérola: “Embora o seu rosto esteja marcado por rugas, Fidel, sua alma continua limpa porque você não traiu os interesses do seu povo”. 

         Só para recordar: Fidel ouviu tudo isso sem ficar encabulado, muito embora, em janeiro de 1959, ainda lisa a face lenhosa, tenha prometido às mães cubanas que nenhuma lágrima derramariam. E olha que ele, nos 47 anos seguintes, não apenas mandou mais de 17 mil para o cemitério como continua mantendo os cárceres políticos de seu país com baixíssima rotatividade e alto índice de ocupação. Dezessete mil, aliás, é filho enterrado para general argentino algum botar defeito. Dá para lotar a Plaza de Mayo sem precisar chamar nenhuma tia. 

         Só para recordar. Em setembro de 2003, já em pleno exercício das funções presidenciais, Lula desembarcou em Cuba, vindo do México, para uma viagem saudosista na qual voltou a reafirmar sua afeição ao amigo Fidel, que acabara de executar “los três negritos” fugitivos, seqüestradores de uma embarcação, e mandado para a prisão 75 dissidentes. Só pra recordar, os episódios haviam determinado o abandono de Castro por dois de seus mais persistentes camaradas – Saramago e Mercedes Sosa. Lula, porém, continuou firme, como firme continua o Foro de São Paulo com suas sinistras intenções. 

         Enquanto escrevo estas linhas, a embaixada cubana acabou de avisar ao Itamaraty que negará visto aos deputados que pretendam ir a Havana verificar a situação dos boxeadores devolvidos às mãos do tirano, de modo criminoso, pelo Governo Lula. Mas os companheiros cuidam de passar a borracha na história. Minha indignada leitora não toma conhecimento disso. E também este episódio acabará reescrito como melhor lhes convém. 

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