O Globo - 05/07/2012   
 Retaliação contra suposta ingerência chavista durante impeachment também inclui exclusão de diplomata venezuelano
ASSUNÇÃO . Em mais um desdobramento da crise regional aberta pela destituição de Fernando Lugo, o Paraguai anunciou ontem a retirada de seu embaixador de Caracas e declarou persona non grata o representante venezuelano em Assunção - que, por sua vez, já regressara à Venezuela na semana passada. A decisão, segundo o governo do sucessor de Lugo, Federico Franco, é uma retaliação à suposta ingerência de emissários de Hugo Chávez durante o processo de impeachment .
Franco argumenta que o chanceler venezuelano, Nicolás Maduro, e o embaixador equatoriano, Julio Prado, mantiveram reuniões na tentativa de convencer a alta cúpula militar paraguaia a apoiar Lugo caso ele fosse deposto pelo Congresso. Anteontem, a ministra da Defesa, María Liz García, chegou a divulgar para a imprensa vídeos que comprovariam a existência dos encontros, já negados tanto pelo Equador quanto pela Venezuela.
"Diante das graves evidências de intervenção por parte de funcionários da Venezuela em assuntos internos do Paraguai, o governo paraguaio retira seu embaixador em Caracas e declara persona non grata o embaixador da Venezuela no Paraguai, que, como não se encontra no país, torna-se desnecessário fixar um prazo para sua saída", diz a chancelaria em comunicado.
Para Lugo, vídeo mostrado como prova é montagem
A retirada do embaixador José F. Javier Arrúe de Pablo foi anunciada pelo próprio Chávez dois dias após o julgamento político, um processo classificado por ele como um golpe de Estado. Já o embaixador paraguaio, Augusto Ocampos Caballero, deverá deixar Caracas imediatamente, segundo a nota.
Naqueles dois dias, Maduro esteve em Assunção em companhia de outros chanceleres da região - inclusive o brasileiro Antonio Patriota -, que abandonaram às pressas a reunião da Rio+20 para tentar achar uma saída para a crise paraguaia. Única evidência do governo Franco sobre o suposto encontro com os militares, as imagens, feitas pelo circuito interno do palácio de governo, foram apresentadas editadas e sem áudio.
Em uma sequência, elas mostram o chanceler venezuelano, o embaixador equatoriano e outros ministros da Unasul. Em outra, líderes das Forças Armadas paraguaias. Em nenhum momento, no entanto, os políticos e os militares aparecem na mesma cena.
Ontem, Lugo qualificou as imagens como uma "montagem tosca". Segundo ele, o vídeo tenta envolver diplomatas estrangeiros em manobras que nunca aconteceram com o objetivo de desviar a atenção do "golpe parlamentar".
"Qualquer diplomata que visitar agora o palácio de governo do Paraguai poderá ser alvo de uma exposição desnecessária, mediante a difusão de imagens de suas câmeras de segurança, com um corte cego de tomadas que não demonstram absolutamente nada", disse o ex-presidente em comunicado.
Além da questão diplomática, Venezuela e Paraguai também enfrentam um imbróglio no campo econômico. Quando comunicou a retirada de seu embaixador de Assunção, Chávez anunciou também que deixaria de exportar diesel para o país. Depois, já admitido como novo membro do Mercosul, o governo venezuelano disse que voltaria atrás.
Ontem, no entanto, a estatal Petropar anunciou a abertura de uma licitação internacional para suprir a falta do diesel venezuelano - que corresponde a 30% do consumo nacional. Na véspera, porém, o próprio presidente da companhia, Sergio Escobar, havia dito que a Venezuela assegurara que não concretizaria a ameaça.
No Uruguai, o presidente José Mujica assumiu ontem toda a responsabilidade pelo apoio dado à entrada da Venezuela no Mercosul, após ser questionado nos últimos dias pela oposição, pelo chanceler Luis Almagro e, de forma mais veemente, por seu vice Danilo Astori.
Em entrevista ao jornal local "La República", Mujica confirmou que a reunião que selou a adesão do país de Chávez, durante a cúpula do bloco em Mendoza, foi liderada pela presidente Dilma Rousseff, mas negou ter havido falta de consenso.
Muijca: Uruguai não podia vetar Caracas no Mercosul
A adesão venezuelana ganhou contornos de crise interna para o Uruguai quando, na segunda-feira, Almagro disse que a decisão em Mendoza não foi unânime, só foi tomada por pressão direta de Dilma - apoiada pela Argentina - e ainda não era definitiva. Elevando o tom do debate, Astori classificou anteontem a incorporação como a mais grave "ferida institucional" na História do Mercosul.
- O (cálculo) político superava largamente o jurídico - afirmou Muijca. - A Venezuela é mais que um governo, é uma nação irmã exportadora de energia e compradora de energia. O Uruguai não podia vetar. Foi o Parlamento uruguaio que decidiu aprovar sua incorporação.
A entrada plena da Venezuela só se tornou possível graças à suspensão do Paraguai, retaliado pelo impeachment de Lugo. Seu Congresso era o único entre os dos quatro países-membros do Mercosul que ainda não havia dado o aval à ampliação do bloco.
 
 

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