Hamilton Bonat (*) - 06/07/2012
Vejam o que pincei nas cartas do leitor de um jornal de Curitiba: “Moro no Paraguai há cinco anos e apenas quem está aqui tem noção do que estávamos passando durante o governo Lugo. Os camperos, com financiamento do ex-presidente, pregavam a xenofobia, principalmente contra os produtores brasileiros e seus descendentes, que eram tratados como estrangeiros”. 
Ora, isso não era novidade para o Itamaraty e, logicamente, para o governo brasileiro. Além do mais, desde 2008, nossa embaixada em Assunção alertava: “Lugo não está agradando”. Assim que assumira o governo, ele aposentara as sandálias da humildade de bispo-candidato, para tornar-se cliente de caríssimos alfaiates ingleses.

Texto completo O colarinho eclesiástico, que continuava a usar mesmo não sendo mais religioso, era uma afronta para o imaginário coletivo de um povo preponderantemente católico, que sentiu-se ainda mais traído ao saber da existência de alguns filhos, impensados para um religioso. Pior ainda: filhos jamais amparados, gerados com mulheres pobres e sem instrução, uma delas com apenas 16 anos.
 
Lula bem que tentou salvar o companheiro bolivariano: concordou que nós, brasileiros, passássemos a pagar o triplo pela energia de Itaipu. De nada adiantou. O ex-bispo continuou viajando mundo afora, acompanhado por belas jovens, hospedando-se, a custa do erário do seu país pobre, em hotéis fantásticos, para participar de conferências, muitas sem importância alguma. Tentaria ainda, mas neste caso sem sucesso, que Itaipu lhe presenteasse com um “aerolugo”
 
Notícias sobre escândalos e negociatas espalharam-se no parlamento, nas redações, nos sindicatos, nos foros empresariais, nos encontros de amigos, nas ruas. Nada em benefício da melhoria da infraestrutura e da modernização do Paraguai. A gota d’água foi o envio de policiais desarmados para cumprir ordem de reintegração de posse de uma fazenda em Curuguaty, ocupada pelos carperos, o MST paraguaio, resultando a morte de 11 sem-terra e seis policiais.
 
Logo, a goleada que levou dos senadores e dos deputados, corroborada pelo judiciário, tudo de acordo com a constituição, não representou golpe algum, como se apressaram em classificar Hugo Chávez e Cristina Kirchner a fim de justificar a exclusão temporária do Paraguai do Mercosul. Era do que precisavam para abrir o caminho para a Venezuela de Chávez ter acesso a um mercado comum que, diga-se, já patina ante as intransigências argentinas.
 
E o Brasil, ao submeter-se aos interesses de Hugo Chávez, repete o mesmo erro cometido na pequenina Honduras do chapeludo Zelaya. Apesar de sua estatura, outra vez apequenou-se, esquecendo das lições do Barão do Rio Branco e de tantos outros diplomatas responsáveis por uma política externa serena e firme, sem interferir nos assuntos internos de outros países e com um entendimento bastante nítido dos interesses nacionais.
 
Quem conhece minimamente a sua história, sabe que não é nada conveniente mexer com os brios do valente povo paraguaio. É bem possível que ele, que já sentira-se traído por Lugo, vendo agora o Brasil, um aliado estratégico, virar-lhe as costas, opte por sua saída definitiva do Mercosul. E, cá entre nós, com a presença do “espaçoso” Chávez, talvez venha a ser o único a lucrar com isso.
 
(*) Hamilton Bonat é General da Reserva

 

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