Ex-embaixador nos EUA e professor da UnB criticam viés partidário da política externa, prejudicando interesses do país
André de Souza 
O Globo - 08/07/2012
BRASÍLIA. A reação do governo brasileiro à deposição do presidente paraguaio Fernando Lugo pôs em evidência um debate que ganhou corpo nos últimos anos: a linha de atuação da diplomacia tupiniquim. O mal-estar ficou claro quando Luis Almagro, chanceler do Uruguai, um dos parceiros do Brasil no Mercosul, reclamou da pressão brasileira para que a Venezuela fosse aceita no bloco, aproveitando-se da suspensão do Paraguai, cujo Congresso se recusava a aprovar o ingresso do novo membro.
A polêmica também agita os meios acadêmicos, políticos e diplomatas ouvidos pelo GLOBO. Para alguns, a política externa brasileira tem um forte componente ideológico que compromete a defesa dos interesses nacionais. Para outros, ocorre o inverso: a diplomacia brasileira tem acertado mais que errado, fortalecendo e dando destaque internacional ao país.
O ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos Rubens Antonio Barbosa (1999-2004) diz que a política externa brasileira, tradicionalmente apartidária, passou a sofrer forte influência do PT ao longo da última década:
- O Itamaraty nunca foi partidário. Depois, nestes últimos anos, muita gente oportunisticamente se aliou ao PT. Mas depois, quando mudar o governo, vai mudar também. Esse pessoal não tem importância. O importante é que a chefia do ministério concorda com certas coisas que eles sabem que não são de acordo com o interesse nacional.
Eduardo Viola, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), vai na mesma linha. Para ele, a política externa do governo brasileiro, desde a ascensão do PT ao poder em 2003, vem sendo marcada por um forte componente ideológico, que compromete a defesa dos interesses nacionais. Para ele, o governo Dilma é menos personalista do que o governo Lula, mas, ainda assim, representa a continuidade. Segundo ele, a política externa era tradicionalmente de Estado, mas hoje está a serviço de uma linha partidária:
- Até 2002, a política externa brasileira era uma política externa de Estado, de longa duração, com uma influência muito limitada dos diversos grupos da coalizão que estavam no Executivo. O que acontece, a partir do governo Lula, é a entrada de um componente ideológico e partidista significativo em várias questões da política externa brasileira, mas mais concentradas ainda na América do Sul - avalia Viola.
Pio Penna, também da UnB, é outro crítico de alguns pontos da política externa brasileira. Para ele, o Brasil muitas vezes cede mais do que devia aos vizinhos, jogando contra seus próprios interesses. No caso da crise paraguaia, ele vê a ação brasileira como um golpe contra o golpe:
- Se aquilo (a deposição de Lugo) foi golpe, o golpe foi combatido com outro golpe, que foi a suspensão do Paraguai para a entrada da Venezuela. Um golpe atrás do outro - disse ele, que, no entanto, entende que parte das mudanças ocorridas nos últimos anos na condução da política externa brasileira são naturais:
- Houve novos desafios, novos problemas, novas questões.

 

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