Já conhecemos esse filme. Depois da negoci-
ação, vem a anistia, a reintegração na sociedade
e depois a vingança contra aqueles que os com-
baterão. Está sendo assim em todos os países
onde os terroristas  atuaram em guerrilhas.
Negociação com guerrilha é aposta de risco na Colômbia
 Por Fabio Murakawa | De São Paulo - 31/08/2012
A iniciativa do presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, de abrir negociações com a principal guerrilha do país, anunciada nesta semana, marca a ruptura definitiva com o seu antecessor, Álvaro Uribe, de quem foi ministro da Defesa, e dá início ao seu esforço para se reeleger em 2014. Para nalistas ouvidos pelo Valor, trata-se de uma aposta arriscada.
Na última terça-feira, Santos anunciou o início de conversas com objetivo de encerrar o conflito armado com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
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O anúncio ocorre no momento em que os índices de popularidade do presidente chegam ao nível mais baixo desde o início do mandato, em agosto de 2010. Sua aprovação despencou de cerca de 80% para algo entre 43% e 47% nesses últimos dois anos, segundo diferentes pesquisas.
Em parte, essa queda se deve a uma sensação de insegurança gerada pela retomada dos ataques das Farc. Mas ela também reflete a desaprovação da sua gestão na área de saúde e um escândalo político envolvendo uma reforma do Judiciário, que acabou derrubando seu ministro da Justiça, Juan Carlos Esguerra, em junho.
"A abertura de diálogo com as Farc é a tábua de salvação para a reeleição de Santos", disse ao Valor o sociólogo Alfredo Molano Bravo, colunista do jornal colombiano "El Espectador". "Se não obtiver êxito, será um golpe determinante para ele."
Ao relançar as negociações, Santos realça ainda mais suas diferenças com o "uribismo". Uribe vem criticando abertamente o sucessor desde que ele promoveu uma reaproximação com a Venezuela de Hugo Chávez, com quem o ex-presidente viveu às turras durante seu mandato (2002-2010). A principal plataforma para os ataques tem sido sua conta no Twitter, com mais de 1,4 milhão de seguidores.
"O presidente Santos, quando ministro, nunca deu sinais de aceitar negociar com o terrorismo temas como narcotráfico ou desenvolvimento agrário", afirmou Uribe em um tuíte, seguido pela hashtag "#SigueElTerrorismo". Em outra manifestação, o ex-mandatário afirmou que "para chegar à negociação, esse governo debilitou a segurança nacional e permitiu a recuperação terrorista das Farc".
Uribe saiu do poder com 80% de aprovação, segundo uma pesquisa Gallup feita à época. E a linha dura que adotou contra as Farc resultou na melhor aprovação para uma área de seu governo, com 82% dos entrevistados avalizando o manejo do problema da guerrilha. Por outro lado, antes do anúncio desta semana, só 19,2% aprovavam a gestão de Santos sobre o tema. E 67,4% eram contra a sua reeleição.
"A sociedade colombiana está dividida. Os que votaram em Santos pela continuidade de Uribe sentem que há uma fraude", afirmou o analista Enrique Serrano. Para ele, as Farc são "monolíticas" e vão unidas para as negociações. "Não vejo chance de um racha."
A agência de notícias Bloomberg informou que os ataques da guerrilha contra dutos da estatal Ecopetrol mais do que triplicaram neste ano, para 37. Ontem, supostos membros das Farc explodiram um trecho de uma ferrovia ligada a uma mina de carvão no norte do país, sem deixar feridos Para analistas, esta seria uma maneira de as Farc reforçarem sua posição para o diálogo com o governo.
 

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