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Categoria: Luta armada
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Uma redação escolar
Em dezembro de 1967, pouco antes do final do ano letivo no Centro de Formação e Aperfeiçoamento da Força Pública de São Paulo, que mais tarde seria denominada Academia de Polícia Militar do Barro Branco, um fato corriqueiro de caserna passou desapercebido de seus personagens.

Texto completo


        Um Comandante de Pelotão, cioso em avaliar o moral e a motivação dos jovens alunos-oficiais do primeiro ano do curso de formação de oficiais, confiados à sua instrução, ordenou aos seus comandados elaborar uma redação com o seguinte tema: ”Por que ingressei na Força Pública e quais meus objetivos como oficial da mesma."

Os cadetes, ainda bisonhos, a quem estavam reservados duros anos de estudo e dedicação integral para a conquista do almejado oficialato da Polícia Militar, sentaram-se nos seus “bureaux” de sala de aula e, disciplinadamente, cumpriram a obrigação.

Um dos jovens rapazes, no silêncio do pelotão, entretido em transcrever no papel as suas idéias, tentou ser o mais sincero possível. Entendeu que deveria registrar que empenharia todo seu valor para ser digno do posto de oficial; respeitoso do passado da Força Pública, comprometeu-se a oferecer por ela os maiores sacrifícios; lembrou-se em boa hora do serviço que deveria prestar à população paulista e brasileira; e finalizou por manifestar seu desejo de servir ao público, talvez em uma unidade de choque.

Mais tarde, no mesmo dia, entre uma troça e outra, normal da cadetada, a redação já fazia parte do passado dos jovens, que despreocupados seguiram seus estudos militares, no cotidiano da caserna.

O tempo passou. Os jovens cadetes conluiram o Curso de Formação de Oficiais, sendo declarados Aspirantes em 15 de dezembro de 1969. Distribuídos entre as diversas unidades da Corporação, coube ao jovem cadete desta história, servir no Batalhão Tobias de Aguiar, o hoje 1o Batalhão de Polícia de Choque, conforme desejava.

Naqueles dias conturbados, guerrilheiros tentavam implantar no nosso país uma ditadura comunista, através de atos terroristas. Na defesa da sociedade brasileira, ordeira e democrática, unânime no combate a estas tentativas aventureiras de retirar-lhe sua soberania e a paz, estavam em guarda as forças militares do país.

O agora jovem tenente desta história, recebeu a missão de comandar um pelotão de fuzileiros de seu batalhão, atuando em conjunto com o Exército e a Aeronáutica, no combate terrestre à guerrilha no Vale do Ribeira. No desenrolar das operações, durante um combate, parte dos feridos de seu pelotão caiu aprisionada pelas forças guerrilheiras, lideradas pelo traidor da pátria Lamarca. O tenente da Força Pública não hesitou e, para salvar sua tropa do assassínio sumário prometido por Lamarca, ofereceu-se em troca de seus homens, que assim tiveram suas vidas salvas.

O tenente, indefeso nas mãos dos guerrilheiros, sofreu o calvário de dias de privações, fome e tortura, para, no sacrifício extremo, ser executado friamente a coronhadas de fuzil, tendo seu corpo abandonado no meio da floresta para ser devorado pelos animais. Desrespeitavam estes guerrilheiros todas as leis da guerra e de humanidade, demonstrando o caráter do que deveria esperar o Brasil se eles fossem vitoriosos. A data era 10 de maio de 1970.

A guerrilha comunista foi derrotada, pela Graça de Deus, salvando o povo brasileiro da implantação de um regime genocida.

A Polícia Militar guardou na sua tradição o nome do jovem tenente, na sua extensa galeria de heróis, por sintetizar em sua ação as maiores virtudes e valores militares, relembrando episódio no qual a Força atuou com honra em defesa do Brasil.

O nome do tenente, óbvio a esta altura, era Alberto Mendes Júnior. A redação que ele escreveu à mão livre, quando ainda era cadete, está afixada em lugar de honra no Centro de Estudos Superiores da Polícia Militar, e diz:


 

F.P.E.S.P.

C.F.A.

E. CAD.

São Paulo 1o de dezembro de 1967.

Cad. Alberto Mendes Junior

nº 18 – 1o C.F.O.  “A”

Redação: - Por que ingressei na Fôrça Pública e quais meus objetivos como oficial da mesma.

        Uma vez incluído na Escola de Oficiais da Fôrça Pública, empregarei todo meu valor físico, moral e intelectual, a fim de alcançar o oficialato desta centenária e gloriosa corporação.

Tudo farei para adquirir a experiência e os conhecimentos que me habilitam, de futuro, ao exercício da autoridade hierárquica, pela forma mais eficaz e conveniente, que é o exemplo.

A Fôrça Pública tem um passado de relevantes serviços em operações de guerra e no campo da sua precípua missão de policiamento.

Já esteve sozinha e sôbre ela recaía todo pêso de tal responsabilidade. Merece, portanto, sacrifícios.

Trabalharei para que a Fôrça Pública do Estado de São Paulo continue a realizar obra digna de seu passado, como excelente mantenedora da ordem pública, e para que o seu conceito se eleve, cada vez mais, no seio da população não só paulista e sim brasileira.

Desejo pertencer às unidades que tratem com o público. Especificamente, Polícia Rodoviária; C.P.A. (corpo de policiamento auxiliar; pelotão de choque) e 9o B.P.