Carlos Chagas.  Tribuna da Imprensa
BRASÍLIA - Uma coisa é o fato. Outra, a versão. O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, foi esta semana à Bolívia, deixando-se fotografar às gargalhadas junto com o ministro boliviano de Energia. Ao mesmo tempo, fez divulgar o sucesso de sua missão, que precede a visita do presidente Lula ao presidente Evo Morales, daqui a um mês.

 

 

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Anunciou que a Petrobras vai investir mais centenas de milhões na produção de gás na Bolívia, aliás, uma atividade que praticamos há muitos anos, ou seja, o gás que aquele país exporta para o Brasil é extraído, comercializado e transportado com dinheiro brasileiro.

É preciso prospectar a versão. Não faz muito a Petrobras foi espoliada pelo governo boliviano, que nacionalizou duas refinarias lá implantadas por nós, e ofereceu uma merreca de indenização. Semanas atrás, o presidente Evo Morales foi grosseiro com o embaixador do Brasil em La Paz, ameaçando botar a Petrobras para fora de seu território se ela não investisse maciçamente. Disse que poderia, também, aumentar o preço e reduzir o volume do gás que nos exporta.

Resultado: Gabrielli foi à Bolívia de chapéu na mão, em meio à crise de falta de gás agora aqui verificada, comprometendo-se a multiplicar os investimentos da Petrobras no país vizinho. Humilhou-se mais ainda ao declarar que a ampliação da produção do gás boliviano, com dinheiro brasileiro, não significa necessariamente a exportação desse gás para o Brasil.

A Bolívia não garante nada. Certamente fará outras exigências que, salvo engano, o presidente Lula não terá como contraditar. Afinal, precisamos de gás. O diabo é se eles reivindicarem o Acre, que compramos deles nos tempos do Barão do Rio Branco...

Convenhamos, eles fazem o que querem. Nós baixamos a cabeça. Tudo porque a Petrobras, em vez de investir no Brasil, para produzir gás brasileiro, que temos em profusão, enterrado, preferiu investir na Bolívia. Está aí o resultado.

Fosse necessário e essa situação, cômica e trágica, mostraria outra vez os abomináveis resultados da política econômica neoliberal praticada desde os tempos de Don Fernando I, multiplicada nos dois períodos de Don Fernando II.

Não temos condições de reagir às agressões dos países ricos, mas, quando vamos aplicar o modelo sobre países mais pobres do que nós, o resultado é esse: humilhações de cima e de baixo. E mais do que humilhações, prejuízos permanentes. Só para não esquecer, o que dizer da carta do presidente George Bush (pai) exigindo que Fernando Collor abrisse mão de pesquisas nucleares que desenvolvíamos e, mais ainda, cimentasse o poço de Cachimbo, uma chaminé natural na serra do mesmo nome, capaz de ser utilizada para experiências atômicas subterrâneas. O jovem presidente cedeu, cimentou e, agora, sabemos dos verdadeiros motivos de porque jamais seremos aceitos como membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Carecemos do cacife necessário, sequer convidados para a sobremesa do banquete de que participam Estados Unidos, Rússia, China, França, Inglaterra, Israel, Índia, Paquistão e África do Sul, com lugares reservados para Alemanha e Japão, se quiserem, mas com o salão barrado para Coréia do Norte e Irã.

Fernando Henrique Cardoso fez muito pior, em matéria de prejuízo para nossa soberania e nosso orgulho. "Flexibilizou" postulados constitucionais inerentes à nossa afirmação, dando a empresas estrangeiras as mesmas prerrogativas das empresas nacionais, destroçando a navegação de cabotagem, abrindo as portas ao lucro abusivo dos bancos internacionais, curvando-se às imposições do FMI, sucateando nossas forças armadas, revogando direitos sociais e, mais do que em qualquer outro período de nossa História, desmanchando a nacionalidade. Pois é. O eleitorado imaginou que o Lula desfaria ao menos uma parte da obra do sociólogo. Fomos enganados?...

Com os pés de barro

Não deixa de ser doloroso a gente criticar a Petrobras, aquela empresa outrora motivo de orgulho nacional, nascida de luta monumental onde até milagres aconteceram, como o de a UDN, partido conservador, haver proposto e aprovado aquilo que nem Getúlio Vargas ousara, ou seja, o monopólio estatal do petróleo. Como prêmio, os udenistas ocuparam a primeira presidência da empresa, na pessoa do general Juracy Magalhães.

Mesmo assim... Mesmo assim, é dever de todos constatar haver-se a Petrobras se transformado no ídolo dos pés de barro. Porque investir no exterior pode ter-se constituído numa política eficaz, em alguns casos, mas, quando feitos investimentos em detrimento de aplicação em nosso próprio território, tratou-se no mínimo de uma bobagem.

Nos tempos do sociólogo o delírio alcançou a estratosfera. Foi quando mais se investiu na Bolívia. A Petrobras implantou naquele país duas imensas refinarias de petróleo. Assim como, entre outras aventuras, ofereceu-se para prospectar, extrair e distribuir gás. Centenas de milhões foram gastos naquilo que parecia garantir nossas necessidades.

Parecia, porque Evo Morales, depois de nacionalizar e estatizar as duas refinarias, ameaçou botar a Petrobras para fora de seu território se a empresa não investisse, de imediato, muito mais do que havia investido. Assim, continuamos a furar poços na Bolívia, para obter gás, mas com uma peculiaridade que o presidente Gabrielli saudou como grande vitória: sem a garantia de ser exportado para o Brasil sequer um galão da nova e promissora produção. E sem a certeza de preços estáveis.

A pergunta já foi feita mas merece repetição: por que não tratamos de viabilizar o gás existente aos montes em território nacional? De Getúlio Vargas a Juracy Magalhães, os fundadores da Petrobras devem estar de luto, lá em cima.

Humor (2)

Dias atrás relacionamos alguns apelidos que circulam nos corredores do Senado, relativos a Suas Excelências e inventados por eles mesmos, ou melhor, pelos adversários. É claro que dando os apelidos, esquivamo-nos de avançar os personagens a que cada um se referia. O leitor que tire suas conclusões, se quiser.

De lá para cá temos recebido numerosos outros exemplos de como o humor ainda consegue transitar pelo Senado. Por exemplo:

Quem será o "Mapa do Chile"? E o "Minhocão - O Verdadeiro Filho da Terra"? Não parece difícil identificar o "Joãozinho - Aquele que só Pensa Naquilo", nem a "Boneca Barbie Morena".

Há também o "Boxeur que Nocauteou a Si Mesmo", além do "Filho Único do Gepeto". Constituem, essas brincadeiras, sinal de que nem tudo está perdido no Senado.

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