Correio Braziliense - 17/10/2012
 
O lento processo de flexibilização do anacrônico regime cubano anuncia mais um tímido passo rumo à normalidade em relação às democracias do mundo civilizado. Raúl Castro, no poder desde 2006, quando assumiu o lugar do irmão Fidel, afastado por motivo de doença, assinou decretos publicados ontem no Diario Oficial de Cuba, eliminando exigências em vigor desde 1961, que, na prática, impediam a maioria dos cidadãos de deixarem a ilha, a turismo, a trabalho ou com propósitos migratórios.
A partir de 14 de janeiro, os cubanos que não tenham sido fichados ou presos por fazer oposição ao governo, não forem médicos, atletas ou pesquisadores de qualquer ramo científico não precisarão mais de pedir autorização e pagar até US$ 200 (quantia elevada para o padrão de renda médio local) para fazer o que, hoje, é um dos mais prosaicos prazeres da classe média que vive na maioria dos vizinhos do continente: viajar ao exterior.
Prometida há dois anos, essa “reforma” migratória foi definida pelo jornal Granma, órgão oficial do governo, como parte das mudanças destinadas a “atualizar” o modelo do país. A mudança põe fim a barreiras que já levaram milhares de cidadãos a arriscar a vida para escapar da ilha por meios ilegais, muitas vezes usando barcos precários para alcançar a costa dos Estados Unidos. Hoje, dos cerca de 1,5 milhão de cubanos que vivem no exterior, pelo menos 80% residem na Flórida e acabaram por se constituir numa ameaça ao regime em vigor na ilha.
Por meio de editorial do Granma, o governo de Raúl Castro justificou a manutenção das restrições impostas a médicos, pesquisadores e atletas de alto rendimento, “enquanto persistirem as políticas (dos Estados Unidos) que favorecem o ‘roubo de cérebros’, destinadas a nos despojar dos recursos humanos imprescindíveis para o desenvolvimento econômico, social e científico do país”.
Mesmo que façam algum sentido para os moradores da ilha, acostumados a ouvir a mesma doutrinação contra o poderoso inimigo externo há 51 anos, as razões alegadas para manter tais limitações ao direito de ir e vir de pessoas honestas, bem como o de expressar discordância das decisões de políticas públicas sem sofrer processo ou prisão, soam como reforço ao valor das liberdades conquistadas nas últimas décadas pelas democracias da América Latina.
A perda dessas liberdades, assim como o acesso a bens patrimoniais e de consumo, tem sido um sacrifício heroicamente vivido pelo povo cubano em nome de uma ideologia que esse mesmo povo deveria ter o direito de discutir e, eventualmente, rever por vontade própria. Sem dúvida agravada pela miopia política do vizinho da outra margem do canal, sempre disposto a manter desumano embargo para agradar a parte mais conservadora de seu público interno, a situação de Cuba reflete o quanto o mundo, em pleno século 21, tem ainda que avançar na aceitação das diferenças, na superação de ódios inexplicáveis às jovens inteligências de hoje e incompatíveis com as modernas facilidades de comunicação entre os povos.
 

 

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