Mulher ferida nos protestos em Sucre. Foto: ReutersDepartamentos mais ricos da Bolívia anunciam autonomia em relação a La Paz

Publicada em 26/11/2007 às 23h19m

O Globo Online
O Globo - Agências internacionais

SANTA CRUZ E SUCRE, Bolívia - Governadores de cinco departamentos da região mais rica da Bolívia, a chamada Meia Lua, se reuniram em Santa Cruz de La Sierra para rechaçar a nova Constituição - aprovada em primeira instância no sábado, em um quartel, sem a participação da oposição - e anunciar uma Carta Autonômica Constitucional, uma espécie de Constituição paralela, imposta de forma unilateral e que põe a região a um passo de formalizar a independência. Segundo o governador de Santa Cruz, Rúben Costa, a Carta é uma clara resposta à Constituição.

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" Não aceitamos a nova Constituição, um panfleto feito entre quatro paredes com uma baioneta, com o luto e com o enfrentamento "

- Fizemos uma reunião de emergência para analisar a situação. Amanhã vamos continuar esta reunião. Posteriormente, vamos nos reunir com as instituições de Santa Cruz para avaliarmos a Carta Autonôma. Esta noite, a Carta será lida para que o país possa conhecê-la e seguramente tomaremos as medidas necessárias pois não aceitamos a nova Constituição, um panfleto feito entre quatro paredes com uma baioneta, com o luto e com o enfrentamento, cujas causas têm um só responsável: o presidente da República, que tem as mãos manchadas de sangue - disse Costa, no aeroporto de Santa Cruz, enquanto despachava um lote de remédios para os feridos nos choques entre policiais e manifestantes contrários à da Constituição em Sucre.

No mesmo tom do governador, o presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz, Branko Marinkovic, disse que seu departamento jamais aceitará a nova Constituição da Bolívia e que a autonomia já é um fato.

" A autonomia de Santa Cruz foi aprovada pela população numa consulta popular e a Constituição que apresentamos hoje é resultado disso. Vamos criar um novo Legislativo e novas formas de gestão "

- Não vamos nos submeter a uma Carta feita de forma autoritária. A autonomia de Santa Cruz foi aprovada pela população numa consulta popular e a Constituição que apresentamos nesta segunda-feira é resultado disso. Vamos criar um novo Legislativo e novas formas de gestão.

Apoiados pelos empresários locais, os governadores da Meia Lua defendem autonomia dos departamentos para poderem administrar os recursos provenientes da exploração dos hidrocarbonetos e demais riquezas minerais. O território gera a maior parte da riqueza do país e tem os melhores indicadores sociais de um dos Estados mais pobres do continente.

Pelo menos quatro pessoas já morreram e 130 ficaram feridas na capital constitucional da Bolívia, Sucre, em três dias de protestos contra a aprovação às pressas da nova Constituição. Entre as vítimas, há um policial que foi linchado por uma multidão, na madrugada de domingo, e um advogado de 29 anos, que morreu baleado no peito. As outras duas vítimas ainda não foram identificadas. Dezenas de prédios e veículos oficiais foram incendiados e saqueados.

- Evo Morales tem as mãos manchadas de sangue - gritavam os estudantes.

O presidente Evo Morales liderou uma marcha em El Alto a favor da Constituição, nesta segunda-feira, e pediu à Assembléia Constituinte que termine de aprovar o mais rápido possível a nova Constituição:

- A Carta foi aprovada em primeira instância, mas ainda precisa ser aprovada artigo por artigo. Tenho muita confiança em nossos constituintes.

Morales atacou governadores e líderes de comitês cívicos contrários à Constituição. A Carta Magna foi aprovada quase por unanimidade numa academia militar. Não houve leitura do documento. Os constituintes tiveram apenas que erguer os braços em aprovação. Dos 138 presentes, 136 deram seu voto favorável. A Bolívia tem 255 parlamentares, eleitos em 2006.

- Alguns dirigentes cívicos, alguns governadores estão pensando apenas em suas empresas para enriquecerem mais. Não estão pensando no povo boliviano. Essa oposição ocorre principalmente quando defendemos que a água nada deve custar, já que é um direito humano, quando tratamos de energia e de outros temas importantes para o país - disse o presidente.

Um porta-voz do presidente informou, segundo a agência estatal ABI, que o governo está exigindo uma "investigação imparcial" para determinar as responsabilidades dos incidentes que resultaram nas quatro mortes.

- Por nenhuma razão instruiu-se a polícia a usar armas de fogo letais, pois a violência não é a lógica desta gestão de governo - disse o porta-voz.

Os protestos e confrontos na Bolívia podem atrapalhar a ida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país no próximo dia 12. A situação deixou o governo brasileiro em sinal de alerta. Caso a situação se agrave, a viagem pode ser adiada. A leitura que se faz é que a presença de Lula em um quadro de convulsão social corre o risco de ser mal interpretada. As opiniões públicas do Brasil e da Bolívia poderiam avaliar que o presidente brasileiro estaria endossando Morales, que vive um impasse com a oposição.

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