Nivaldo Cordeiro (13/08/2006) 

Duas figuras notáveis do cenário social brasileiro são o banqueiro Olavo Setúbal e o cardeal-arcebispo de Salvador e presidente da CNBB, Dom Geraldo Majella Agnelo. Dois homens que alcançaram a senectude com uma história pessoal de sucesso tendo desempenhado ativamente papéis na nossa história contemporânea. Por seu destaque e também pela idade avançada deveríamos esperar desses dois senhores lições de sabedoria e ensinamentos práticos de ação positiva. Em vão. Suas idéias são o oposto do bom senso e o espelho medido do grau de alienação que tomou conta da elite brasileira, que perdeu não apenas o senso de realidade, mas o instinto de sobrevivência.

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Na edição de hoje da Folha de São Paulo encontrei um artigo do cardeal e uma entrevista do banqueiro. Quero comentá-los porque formam um material bastante didático para um estudo da determinação da grave decadência de que padece a sociedade brasileira. Se poderosos envelhecidos, que exercem o poder em sua área de atuação, não vêem a realidade como ela é, o que dizer dos mais jovens? O Brasil está órfão de liderança.
Comecemos com a entrevista de Setúbal. Ele iniciou por afirmar que “o governo Lula acabou sendo um governo extremamente conservador”. É preciso abstrair o fato de Setúbal ser banqueiro e Lula um bom pagador de juros sobre a dívida pública. Lula seria conservador? Não. Tentou de todas as formas elevar a carga tributária, apóia abertamente o movimento guerrilheiro do MST e suas dissidências, alinhou a diplomacia brasileira com Hugo Chávez, Fidel Castro e o Foro de São Paulo, movimento em si absolutamente revolucionário, fez da compra de votos via bolsa-família sua base de reeleição, fazendo regredir as práticas políticas brasileiras ao tempo da República Velha. Isso sem esquecer que fez o Brasil mergulhar nas práticas fisiológicas e corruptas sem paralelo na história, com a instituição do mensalão, o aparelhamento do Estado para gerar recursos escusos para campanhas eleitorais e práticas como as que resultaram no escândalo chamado de Sanguessugas.
Ingenuamente Setúbal vaticina que não há “nenhum sinal de tensão no sistema financeiro”. Ora, um analista minimamente interessado na realidade sabe que a reeleição de Lula servirá como ponto de partida para as reformas autoritárias que não conseguiu instituir, como a lei da mordaça, como a tentativa de tutelar a imprensa, o alinhamento mais forte com o regime da Venezuela, com uma hostilidade maior em relação aos EUA, e com a expansão dos “direitos” incompatíveis com o livre mercado. Seria o preâmbulo da implantação adiada do socialismo e a prática inaugurada por Chávez de abolição da separação dos poderes. Chamar Lula de conservador, como fez Setúbal, chega a ser piada de mau gosto. Daí ele concluir que “não tem diferença do ponto de vista do modelo econômico. Eu acho que a eleição do Lula ou do Alckmin é igual”. Tem sim. Lula é um revolucionário cuja ação radical está latente e pronta para ser posta em ação. Alckmin não tem qualquer compromisso com o movimento comunista. São antípodas.
Setúbal tem uma visão idílica do Brasil: “Nunca o Brasil esteve tão bem como hoje. A educação, a saúde, tudo melhorou enormemente. Só tem uma coisa que piorou: a segurança pública. No meu tempo de jovem, havia um único ginásio, era ginásio do Estado, mas dizer que a educação era boa antigamente é uma grande ilusão. Tudo melhorou. O ensino melhorou, a USP melhorou enormemente em relação ao que era 50 anos atrás. A única coisa que realmente piorou foi a segurança pública”. É insensato imaginar que a USP, por exemplo, aparelhada para ser um viveiro de militantes revolucionários, melhorou em relação ao passado. E não ver que o ensino público fundamental e médio é uma sucata viva, que só tem compromisso com a doutrinação de esquerda, é não saber o que se passa. O Brasil progrediu em muitos campos, mas nunca o país esteve tão à mercê de aventureiros despudorados que não hesitarão em destruir o que se conseguiu para alcançar seus objetivos políticos.
Seu único senão é a segurança pública, mas não percebe que ela é a ponta-de-lança dos inimigos da sociedade aberta e o abre-alas da revolução. A violência que explodiu em São Paulo tem causas políticas. Mas Setúbal tem na ponta da língua uma explicação para ela, completamente alienada: “A principal razão é a explosão da natalidade. A taxa de natalidade ainda cresce de forma absurda no Brasil. Chegou a ser 5% o crescimento anual da população brasileira. Hoje ainda é muito alta. O Brasil precisa diminuir a taxa de natalidade. Mas nenhum político assume isso por causa de problemas religiosos”. E diz que o suposto problema tem origem na Igreja Católica, que não recomenda o uso de contraceptivos.
É como se os bebês, ao nascer, já viessem armados de AR-15. Ridículo! A violência é um aleijão moral praticado por pessoas adultas, má intencionadas e movidas politicamente. Nada tem a ver com a taxa de natalidade e com os bebês. Aliás, as últimas pesquisas demográficas divulgadas pelos IBGE mostram que a taxa de natalidade no Brasil, mormente a de São Paulo, está no nível europeu. Setúbal se engana duas vezes, por julgar que a população está crescendo velozmente e por achar que o mal está na sua expansão.
Banqueiros só têm compromisso com a rentabilidade de seus bancos e não têm, em princípio, porque se transformarem em bons analistas sociais. Dou esse desconto ao velho Olavo Setúbal, que de tanto conviver com a esquerdalha da USP adotou seu jargão e a sua visão equivocada. Já o cardeal Agnelo é outra história: ele representa a sagrada tradição, que tem as lupas para ver a realidade e tem o estofo moral e a certeza metafísica que não podem levar a enganos. Por isso fiquei desolado ao ler a sua opinião exposta no artigo (“São Paulo, cidade sitiada”), em absoluto desacordo com o que aprendi da doutrina cristã e tenho visto nos documentos escritos pelo Santo Padre Bento XVI: “Em meio a tantas opiniões, fico com a maioria dos analistas sociais: está na injustiça, que, a meu ver, é um cancro que rói as entranhas da humanidade”.
Ora, alguém só cai no crime e no pecado pela fraqueza moral individual e pela má intenção. A frase do cardeal oculta a análise marxista da luta de classes que substitui as certezas cristãs. Um cristão sabe que o mal está sempre à espreita e que ele, o mal, é mais eficaz quando toma a forma de movimentos político. E que deve resistir ao mal. Quando o mal se assenhora do Estado, como houve em todas as experiências coletivistas, a sua eficácia foi total e a imagem cristã de que esse mundo é um Vale de Lágrimas alcançou expressão concreta na sua plenitude.
A tese do cardeal o leva necessariamente ao relativismo moral, fato que o faz inocentar algozes e transformar as vítimas dos facínoras em culpados pela violência que sofrem, em completa inversão das coisas. Nas suas palavras: “Inegavelmente, a existência da flagrante injustiça reinante no Brasil faz surgir novas lideranças, boa parte delas surgidas dos guetos gerados por essa mesma injustiça. Não adiantou nos fecharmos em condomínios, comprarmos câmaras para nos livrar do "inimigo", pois ele está no meio de nós, e nós subestimamos a sua inteligência. Ele aprendeu a corromper, a comprar pessoas e instituições; ele nos causa medo, pois atinge nossos filhos, atinge a todos nós, e agora ataca até mesmo a instituição criada para nos defender. Estamos reféns. Quem pagará nosso resgate”? Como cristão eu diria que Cristo pagou nosso resgate, mas não se trata dessa certeza escatológica aqui.
Não satisfeito ainda reconhece legitimidade aos meliantes em pôr em dúvida as instituições que representam a democracia. Escreveu: “Impressionou-me o depoimento de Marcola, no qual disse que sua "escola" fora a dos exemplos vindos de poderes constituídos, corrompidos e corruptores. Não terá ele razão? Essa escola não atingiu só o PCC: tem atingido toda a sociedade. Ser honesto passou a ser sinônimo de tolo, de débil mental. Mas não existe só essa escola apontada por Marcola. Nós criamos muitas outras, e por elas caminhamos”. O cardeal coloca no mesmo patamar o criminoso muitas vezes apenado e as instituições da democracia. É nivelar por baixo. Marcola não tem autoridade alguma para julgar nosso sistema político. Na verdade, para nada.
O delírio do cardeal é tão grande que inventou até novas formas de pecado, algo absolutamente alheio aos textos sagrados, se supusermos que o que Lênin e Marx escreveram nada tem de sagrado e seus escritos não são canônicos. Nas suas palavras: “Penso que hoje não podemos apenas falar de pecado social. Há também um pecado estrutural, presente nas instituições governamentais mais representativas. E isso se faz notório quando percebemos que, mesmo enxergando a calamidade que está dentro de nós, continuamos tentando encobrir o sol com a peneira, como se tivéssemos controle do tsunami que se formou no meio do oceano social”.
Pecado social? Pecado estrutural? Ora, pecado é algo que tem a ver apenas com indivíduos e só o marxismo-leninismo é que poderia, por uma analogia assaz grosseira, usar essas expressões. Um homem de fé e cultuador das Escrituras não poderia cair em um erro como esse.
Sua conclusão não poderia ser mais insensata, invertendo a realidade as coisas: “Não há tempo para apontar culpados e vítimas. Todos somos culpados e vítimas -e, diria melhor, somos vítimas de nossas culpas”. Será que o cardeal ainda não descobriu de que lado está? Que há o bem e o mal? E que o mal em política hoje responde pelo nome de coletivismo? E que Marcola e seus “soldados” estão a serviço do mal? Será tão difícil assim distinguir a virtude do vício? Ao misturar tudo no mesmo saco penso que o cardeal prestou um serviço ao Inimigo de Deus.

Nivaldo Cordeiro www.nivaldocordeiro.org

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