Por José Batista de Queiroz - General de Brigada RR
Dentro do uniforme azul, verde e branco está o mais belo exemplo de um soldado. Faz-se presente em cada pedaço do Brasil. Só pensa no bem do país. O frio, o calor, o sol, a chuva, nada impede o seu trabalho. Nem mesmo os salários baixos, as ofensas gratuitas, as ingratidões oficiais, nada afeta a sua dedicação. O seu lema é servir ao Brasil. Servir de verdade, com suor e amor. E você o faz com abnegação. Sua recompensa é a alegria do dever cumprido. O seu ideal é ver um Brasil unido, livre, forte. O seu sonho é ver as desigualdades, as injustiças, ancoradas no passado. Mesmo com esses valores atracados em sua alma, muitas pessoas fazem tudo para ofuscar o seu brilho, macular o seu rosto.

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"Os lugares mais quentes do INFERNO estão reservados para aqueles que EM TEMPOS DE CRISE MORAL optam por ficar na NEUTRALIDADE." (Dante Aligheri)

 

Rosto de soldado é cara de homem mau, imagem de bicho-papão. Assim pintam o seu retrato. Querem vê-lo na miséria, desmoralizado, inútil. Tentam vulgarizar o sabre, a farda, a profissão. Atribuem-lhe missões que não são suas. Tratam-no com desprezo e ironia. Usam apenas a caneta para exonerar altas patentes. E a fumaça da paz continua saindo do cachimbo. Negam-lhe tudo, inclusive salário decente. Todos recebem aumentos, menos você. A desculpa é sempre a mesma: não está no Orçamento. É pura má vontade. Você sabe disso.

Não lhe dão comida, nem armas, nem equipametos. Faltam fuzis, mas sobram facões. Dão-lhe apenas mais deveres e menos direitos. O seu dinheiro de saúde é usado para outros fins. E a sua saúde fica internada no hospital. Querem tirar-lhe até a sua história. Aquela história que você escreveu com a própria vida, dentro e fora do Brasil, está como sol poente atrás dos montes. Vai-se perdendo no tempo como as águas se perdem nas matas. Os seus feitos são pedras lançadas ao rio, são rios perdidos no mar. Os tempos mudaram. Os heróis não são mais os que morreram pela liberdade, mas os que mataram pela escravidão. As homenagens não são mais para os homens da lei, mas para os homens sem lei.

O palácio virou castelo e se fechou para o soldado como a noite se fecha para o dia. A voz dos facões tornou-se mais forte que o brilho dos sabres. Ninguém mais ouve o seu grito, o seu lamento, a sua necessidade. Quando ele chega aos palácios, já está ofegante, com sinais de cansaço, sem entusiasmo. Parece sol no fim do dia. Chega sem porta-estandarte. É como soldado sem comandante, uma idéia sem líder. O seu ministro usa sua voz de leão apenas para os subordinados. Sua preocupação é com os aeroportos, não com o soldado. Do soldado quer a farda para ficar vistoso, como quis a beca para parecer monarca.

Ele sabe que a disciplina está na formação, não no salário; que a hierarquia torna o grito mais suave que o canto, a palavra mais leve que a pluma. Ele sabe que, na choupana, não há ventania, apenas brisa. Mas nada dura para sempre. A corte nunca foi a morada do eterno. No mundo, a luz predomina sobre a escuridão. As noites e os dias se revezam. As estações se sucedem. Não há inverno que não termine, nem primavera que não comece.

Estrela só existe no céu e, assim mesmo, só brilha durante a noite. Por mais que tentem transformar você num tronco desfolhado, continuará vivo como árvore de outono. A sua resistência está nas raízes, não nas folhas; está no espírito, não no corpo. A sua alma é de soldado. Um dia você verá que não pode falar suave com quem só entende a linguagem dos duros, não pode tocar violino para quem só ouve guitarra. Um dia a dignidade da farda levantará sua voz. A sua honra será mais forte que o canhão. Um dia será tratado como um soldado e não como um desconhecido. Quem vive como herói não morre como covarde.

 

Em homenagem aos cadetes da Academoa Militar das Agulhas Negras, Turma Bicentenário de Caxias, declarados Aspirantes - a - Oficial  no dia 23 de novembro de 2007,  difundo a carta do General José Batista Queiroz, publicada , com destaque, no Correio Braziliense de 3 de dezembro passado.
Carlos Alberto Brilhante Ustra -Cel Ref

 

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