Por Marcos de Moura e Souza - Valor Econômico
 Dentro de uma construção quase toda em ruínas, ocupada por famílias de sem-teto, um nome é repetido com freqüência e admiração por líderes dos moradores: Hugo Chávez. O prédio fica no Jardim Novo Osasco, bairro de baixa renda de Osasco, na Grande São Paulo, e foi invadido há quatro anos. Em seu entorno nasceu uma favela com casebres de madeira e latão. São 136 famílias; 540 pessoas. Todas de alguma forma ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que organizou a ocupação e batizou o lugar com o militante nome de Acampamento Carlos Lamarca.

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Num dos espaços do edifício de dois andares funciona a Biblioteca Revolução Bolivariana. Ali estão algo como mil livros, dispostos em estantes que ocupam quase toda uma parede. Ali também se encontram publicações em espanhol produzidas pelo governo da Venezuela sobre Simón Bolívar, sobre a Área de Livre Comércio Bolivariana (Alba, um bloco imaginado por Chávez e Fidel Castro), discursos de Chávez, a Constituição promulgada por Chávez, estatísticas sobre a gestão de Chávez, entre outros documentos e informes da Venezuela.


A biblioteca é um dos frutos mais chamativos do círculo bolivariano de São Paulo. Criado há cinco anos, o círculo é um grupo formado por militantes de partidos de esquerda, movimentos sociais e estudantis que, com apoio da embaixada venezuelana, promovem debates, palestras, reuniões periódicas e manifestações em defesa do governo Chávez e do que ele chama de revolução bolivariana.

No Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba e outras cidades também existem círculos tocando atividades semelhantes. Nesta sexta-feira e amanhã, o grupo carioca promove a I Assembléia Bolivariana Nacional e espera receber representantes de grupos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia, Roraima, São Paulo e Brasília.

"Nossa idéia é divulgar as idéias bolivarianas de integração regional e de formação de um bloco de nações de peso em todos os lugares onde existe oportunidade, sem sermos elitistas, sem ficarmos restritos a ambientes universitários, por exemplo, mas indo aonde a população está", diz Eduardo Goulart, integrante do círculo paulista.

É difícil ter idéia clara do grau de assimilação do ideário bolivariano, mas a multiplicação de núcleos, em particular nas favelas do Rio e de São Paulo, sugere que o movimento tem encontrado certa aceitação entre o público-alvo visado por Goulart.

"O que fazemos aqui é uma prática muito parecida com a dos "consejos comunales" criados por Chávez na Venezuela. Temos núcleos com representantes de grupos de moradores, fazemos reuniões, trabalho de formação e criamos espaços de decisão entre o povo pobre. A diferença é que lá os "consejos" recebem verba pública para resolver alguns de seus problemas", compara o mentor do Acampamento Carlos Lamarca, João Batista Albuquerque, de 34 anos, ex-pedreiro nascido em João Pessoa, que atua como um dos coordenadores nacionais do MTST em São Paulo.

"Jota", como Albuquerque é tratado pelos sem-teto, também é integrante do círculo bolivariano paulista e se diz um admirador de Chávez, a quem considera um exemplo de estadista para a América Latina. "Aqui no acampamento falo bastante da Venezuela e de Chávez", conta ele, sentado à única mesa da biblioteca, rodeada por cadeiras de plástico. "Mostramos que os problemas dos pobres no Brasil são os mesmos problemas dos pobres de lá. E mostramos o que está sendo feito na Venezuela em relação a eles e que as soluções passam pela pressão internacional das populações pobres", diz Albuquerque, que começou sua carreira de militante no MST e que em 1997 ajudou a fundar o MTST.

O MTST, explica o coordenador bolivariano, organiza núcleos, mobilizações e fomenta reivindicações em 58 favelas da região metropolitana, localizadas principalmente nos bairros de Campo Limpo e Capão Redondo e nos municípios de Itapecerica da Serra, Taboão da Serra, Osasco, São Bernnardo do Campo e Guarulhos. "O tema "Venezuela" faz parte do nosso discurso em todos esses locais. Nossos militantes sempre recorrem ao que acontece lá, para falar de formas de luta para os problemas que temos no Brasil".

Até que ponto a mensagem revolucionária bolivariana é absorvida e assimilada por moradores de favelas, no Rio ou em São Paulo? "Quando comecei a ouvir essas coisas, não entendi direito", confessa o coordenador do Acampamento Carlos Lamarca, em Osasco, Raimundo Francisco Cruz, 48 anos, baiano de Ibirapitinga. Cruz já participou de atos a favor de Chávez promovidos pelo círculo paulista e diz ter hoje "curiosidade em conhecer a Venezuela". Ele assistiu às aulas de um cursinho de espanhol promovido na favela por "companheiros" do círculo e já está pensando em como gastar as palavras que aprendeu na viagem a Buenos Aires, no começo de 2008, que o MTST organiza para aproximar líderes de sem-teto brasileiros e piqueteiros argentinos.

Quanto à biblioteca e ao material sobre a Venezuela, Cruz ainda não pode acessá-los. Embora tenha feito uma iniciação em espanhol, ele não sabe ler nem escrever em português. Cruz também pensa que o parco espanhol que aprendeu poderá ser útil, um dia, em eventual viagem à Venezuela. "Qualquer hora eu posso ter de ir para lá", acredita. Vários bolivarianos brasileiros já fizeram a viagem, Albuquerque e Fernandes entre eles, com passagens, dizem, bancadas pelos colegas do círculo e com recursos próprios.

A Venezuela pintada, valorizada e difundida pelos integrantes dos círculos bolivarianos é um país cujo governante confronta os interesses da burguesia, reparte poder com as classes não dominantes, busca uma integração dos povos da região que não seja apenas financeira e comercial, procura fazer frente ao poder americano e, por fim, tenta construir um modelo socialista "bolivariano" como alternativa ao capitalismo, supostamente superior e mais justa.

"Cada grupo que se reúne para estudar o pensamento de Bolívar representa um avanço para a democracia e a união sul-americana"

Essa identificação com a Venezuela de Chávez leva os bolivarianos brasileiros a se engajar em atos em frente à embaixada em Brasília, a favor, por exemplo, da decisão de Chávez de não renovar a licença de transmissão da emissora de TV oposicionista RCTV, ou contrários ao governo americano, como aconteceu quando do golpe contra Chávez, em 2002. No domingo passado, uma demonstração reuniu pequeno grupo de chavistas do Círculo Bolivariano Leonel Brizola, do Rio, numa vígília em frente ao consulado da Venezuela, em apoio ao projeto de reforma constitucional que Chávez submetia naquele dia a referendo, e que acabou rejeitado pelos venezuelanos.

Além de empunhar bandeiras vermelhas e ir para as ruas defender as idéias e propostas de Chávez, os bolivarianos brasileiros também se ocupam de encontros com públicos selecionados. "Manifestamos nossa solidariedade ao governo da Venezuela e à revolução bolivariana em palestras e reuniões nas instalações da CUT, do PT, da Central de Movimentos Populares e em outros espaços", diz Afonso Magalhães, servidor público federal e suplente do diretório nacional do PT. É Magalhães quem está à frente do círculo de Brasília. O público desses encontros é composto de modo geral por sindicalistas, filiados do PT, PDT e PSOL, líderes de movimentos sociais e integrantes do movimento estudantil. Recentemente, Magalhães reuniu um grupo de bolivarianos para marcar presença, na embaixada, em ato de lançamento de um livro sobre Bolívar bancado por Caracas e que será distribuído no Brasil. "Não somos diletantes que ficam discutindo o bolivarianismo entre quatro paredes. Somos militantes", afirma Magalhães.

Não há uma coordenação central das atividades dos círculos no Brasil, segundo os militantes ouvidos pelo Valor. Nem um rol de intelectuais de peso por trás dos núcleos. Mas nada disso parece diminuir a importância que o governo venezuelano dá aos círculos. A embaixada da Venezuela não apenas mantém contato freqüente com os grupos, como os apóia fornecendo material de divulgação preparado pelo governo Chávez e coordena viagens de parlamentares governistas que se reúnem com os bolivarianos no Brasil. Pelo menos uma vez, o embaixador no Brasil participou de um encontro com o círculo do Rio. Segundo Albuquerque, há cerca de seis meses, o deputado venezuelano Víctor Chirino esteve em São Paulo e visitou o acampamento João Cândido do MTST, em Itapecerica da Serra.

O chefe do setor de política e comunicação da embaixada, Nelson González Leal, elogia os grupos, mas afirma que são autônomos, que não recebem ajuda em dinheiro da representação diplomática. "O material que os círculos nos solicitam, nós distribuímos: informes sobre a reforma constitucional, livros sobre as chamadas "missões" [que levam serviços de saúde e educação a bairros pobres de Caracas], indicadores sociais, discursos do presidente, enfim, um material que está à disposição de todo mundo", diz Leal.

"Cada grupo que se reúne para estudar o pensamento libertário de Bolívar representa um avanço para a democracia e para a união sul-americana. E vemos com muita alegria que existam esses círculos no país", comenta Leal. Segundo ele, a embaixada coordenou, este ano, duas visitas de delegações de parlamentares venezuelanos ao Brasil. Uma delas, para que apresentassem os pontos de vista do governo Chávez sobre o caso da RCTV; a outra, para defenderem a reforma constitucional.

"A embaixada tem feito um trabalho de difusão do pensamento bolivariano, que, achamos, atinge não só a Venezuela, mas toda a América do Sul", explica Leal. "Nosso objetivo era colocar os parlamentares em contato com atores políticos ativos no Brasil, entre os quais os parlamentares brasileiros, o PT, o MST e os círculos bolivarianos, porque todos são geradores de opinião e para nós é importante que a sociedade brasileira possa entender o que se passa na Venezuela", diz Leal.

No fim de outubro, duas parlamentares chavistas estiveram no Rio para defender o conjunto de reformas que, entre outros pontos, estabelecia a possibilidade de candidatura do presidente Chávez à reeleição por tempo indefinido (ele está no poder deste 1999). As parlamentares falaram a audiências no Clube de Engenharia e na Casa Bolivariana, espaço criado pelo círculo bolivariano Leonel Brizola na sede da Federação das Favelas do Estado do Rio de Janeiro. "As palestras trataram da importância do apoio ao processo da reforma e reuniram líderes comunitários, estudantes, sindicalistas", conta Aurélio Fernandes, coordenador do círculo e quadro do PDT.

Fernandes é um dos organizadores da Assembléia Nacional Bolivariana, que acontece hoje e amanhã na Casa Bolivariana, na praça da República, no centro do Rio. O site do encontro diz que "nesta data discutiremos e aprovaremos as propostas de bases políticas e normas de funcionamento para iniciarmos o processo de construção de uma organização política revolucionária, que se defina como bolivariana, guevarista e brizolista e que fundamente na teoria marxista sua visão crítica e revolucionaria".

Atualmente, segundo Fernandes, são sete os círculos bolivarianos em atividade no Estado. Um deles, o Círculo Bolivariano de Favelas Hugo Chávez, em fase de implantação, terá como meta central estimular a criação de outros círculos nas favelas cariocas. "A idéia é que, nesses novos círculos, sejam promovidos debates políticos e atividades em torno de vídeos como "A Revolução Não Será Televisionada"", prevê Fernandes, referindo-se ao documentário sobre o fracassado golpe de Estado promovido pela oposição a Chávez em 2002.

Outro grupo do Rio, o Círculo Carlos Marighella, funciona numa ocupação da rua Riachuelo, onde vivem 70 famílias de sem-teto. "Nesse processo, fazemos discussões, passamos vídeos, refletimos sobre idéias antioligárquicas, anticapitalistas...", explica o brizolista bolivariano. Para Fernandes, a derrota de Chávez no referendo de domingo não enfraquece o ímpeto dos círculos. "Uma guerra não se perde com uma derrota pontual, ainda mais com campanha tão pesada como a que houve contra ele. A defesa do projeto de mudanças continuará."

A aproximação com o ideário bolivariano chavista poderia ser interpretada como ingerência venezuelana em questões internas brasileiras? Para Francisco Fonseca, professor de ciência política da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, somente se poderia falar em intervenção ou ingerência se Caracas estivesse contribuindo com recursos para a formação de um partido ou uma organização política no Brasil que tivesse por objetivo exercer pressões no país em favor dos interesses venezuelanos. Em sua opinião, o apoio que a embaixada diz fornecer aos círculos não configura um quadro de ingerência externa.

O Brasil não é o único país onde se encontram círculos bolivarianos. Argentina, Uruguai, Bolívia, e até nos EUA, grupos semelhantes se reúnem em atividades de promoção do bolivarianismo e a favor de Chávez.

A idéia de criação dos círculos surgiu na Venezuela em 1998, na época da primeira candidatura à Presidência de Hugo Chávez. Eram centros de difusão de suas idéias e das bandeiras de integração regional que, supostamente, favoreceria as populações mais pobres dos países sul-americanos. Nove anos depois, nem a derrota no referendo de domingo, nem os problemas econômicos - como desabastecimento e inflação - que afligem principalmente os venezuelanos mais pobres, parecem abalar a fé dos bolivarianos. Pelo menos, a dos que vivem fora das fronteiras da Venezuela. 

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