Ricardo Brandt - Estadão
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira (6), em Belém (PA), que não haverá integração entre os países do Mercosul se os mais fortes economicamente, como Brasil e Argentina, não fizerem concessões para os menores. Ele ainda defendeu o avanço das esquerdas na América do Sul e Central e elogiou publicamente a postura dos colegas Hugo Chávez, presidente da Venezuela, Evo Morales, da Bolívia, que se envolveram em recentes conflitos diplomáticos com o Brasil.

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"Fica de um lado uns países achando que a Argentina é um país imperialista. De outro lado os companheiros da Bolívia e do Paraguai tratando o Brasil como imperialista. Obviamente que tem que ser assim, porque nós não fazemos aquilo que tem que ser feito em política internacional. Nós temos que ceder para esses países menores poderem crescer."


Num discurso descontraído, mas repleto de citações históricas e lances da política diplomática, que durou 45 minutos no evento de encerramento do Encontro de Governadores da Frente Norte do Mercosul, Lula surpreendeu a todos.

O presidente iniciou seu discurso lembrando o Fórum de São Paulo que foi o primeiro encontro promovido na América Latina entre as esquerdas. "Lembro como se fosse hoje, só da Argentina tinha 13 organizações políticas de esquerda que não se conversavam. A única coisa que os unia era o Maradona."

Segundo ele, a partir dali começou uma revolução das esquerdas na América do Sul que agora caminha para a América Central. "O que aconteceu na América do Sul é um fenômeno político que possivelmente os sociólogos levarão um tempo para compreender, porque foi tão rápida a mudança", afirmou.

Lula citou conquistas da esquerda na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, no Equador como um processo de crescimento. E lembrou: "Nessa época, depois, o Chávez era o único presidente com cara progressista, com compromissos efetivos com o povo mais pobre".

"E hoje vemos que o que aconteceu na América do Sul está se espraiando pela América Central e para a América Latina", disse o presidente sob aplausos - citando as eleições na Guatemala, no Panamá e as possibilidades da esquerda em El Salvador. "E assim estamos avançando. Há um mapa exatamente antagônico ao mapa que existiu de 1980 a 1990 ou ao ano 2000."

Segundo ele, quando o povo teve a oportunidade na América do Sul "ele fez uma guinada completa, trocou o neoliberalismo pelo que tinha de mais avançado em políticas sociais".

Integração

O presidente Lula assumiu o discurso de que o Brasil, como maior País da América do Sul, tome a frente nas políticas de integração comercial do Mercosul abrindo concessões aos países menores. Segundo ele, é natural que recai nas costas do Brasil a responsabilidade de levar em conta as assimetrias existentes nas relações comerciais da América do Sul.

"O Brasil, a Argentina, a Venezuela têm a obrigação de estabelecer alguma estratégia não de querer fazer competitividade em igualdade de condições, mas de ajudar os países mais pobres a ter uma relação conosco em que a vantagem possa ser desses países menores", afirmou. "Temos que trabalhar para industrializar países como o Paraguai, a Bolívia", completou.

Segundo ele, para que o Mercosul evolua é preciso mudar a forma como tratar os países de menor porte.

Lula disse que o Brasil não precisa ceder, mas sim ser generoso. "Temos que compreender que uma boa relação comercial não é aquela que eu vendo mil e compro dez. Essa relação é asfixiante para os países menores. Uma boa relação é aquela que eu vendo mil e compro novecentos para ter equilíbrio"

Colegas

Lula fez elogios e defendeu Chávez e Morales. Ele lembrou o episódio da nacionalização do gás na Bolívia como um exemplo de concessão a ser feita nas relações entre países. "Estava em época de eleição quando o Evo Morales quis nacionalizar o gás dele e eu disse: ‘o gás é do Evo e ele está correto em nacionalizar, o gás é uma matéria prima e única coisa que a Bolívia tem’".

Ele disse ainda que "de vez em quando querem" que ele brigue com o presidente venezuelano. "Cada coisa que eu falo é uma manchete negativa. Se nós governantes, políticos e a imprensa aprendêssemos de que a coisa mais nobre numa relação internacional é o respeito às decisões soberanas de cada país... Cada pais decide o que é bom para si. Cada país decide a sua moeda, sua política industrial, seu regime político".

Lula brincou ainda com a platéia dizendo que todo mundo só quer "o bem bom", ao citar a falta de integração pluvial entre o Brasil e o Equador. "Todo mundo quer ir para Nova York, Roma e Madri. Ninguém quer voar para Bolívia, para o Equador. As pessoas só querem bem bom. Só querem comer carne argentina e uruguaia, não querem comer carne de bode." (AE)

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