O professor Fernandes, brizolista, na sede dos Círculos, no Rio. O movimento atrai jovens socialistas

Revista Época
O prédio caindo aos pedaços, no centro do Rio de Janeiro, lembra uma construção cubana. É desses palácios que um dia já foram suntuosos, mas hoje equilibra-se entre os tijolos para ficar em pé. No térreo, fica a presidência da Federação das Favelas do Estado do Rio de Janeiro (Faferj). No 3o andar, numa sala equipada apenas com uma mesa e dezenas de carteiras escolares empoeiradas, está a sede dos Círculos Bolivarianos do Rio de Janeiro.


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        O professor de História Aurélio Fernandes, de 46 anos, pendura banners dos Círculos Bolivarianos Leonel Brizola, que ele dirige. Os cartazes vão dividir as paredes com quadros de apologia a Fidel Castro e Che Guevara. Num deles, o ditador cubano aparece erguendo um fuzil russo Kalashnikov, sob a frase “Nuestra suerte está echada – Patria o muerte, venceremos”. Outro afirma: “Duzentos milhões de crianças dormem nas ruas no mundo. Nenhuma delas é cubana”.
        Foi nesse cenário que se programou a realização, nos dias 8 e 9, da Assembléia Bolivariana Nacional de 2007, encontro de membros dos Círculos Bolivarianos de todo o país. O grupo – que se reúne para discutir e difundir os ideais de Simon Bolívar, militar venezuelano considerado o libertador de Venezuela, Colômbia, Bolívia, Peru e Equador do domínio espanhol no século XIX – tem em Hugo Chávez, hoje, seu maior ícone e parceiro.
        No fim do encontro, que servirá para definir o estatuto da organização, os membros divulgarão um manifesto. Muito provavelmente ele será ignorado. “A mídia tem sido extremamente parcial na questão da Venezuela e jamais vai apoiar um movimento contrário ao imperialismo”, diz Fernandes. Mas eles não se importam. O movimento cresce principalmente entre os jovens e é semeado no campo fértil da desilusão com a política brasileira e os partidos tradicionais.
      
 
 Eduardo Pinho, de 25 anos, carioca, ao lado da foto de Che
 O governo Chávez mantém uma colaboração estreita com os bolivarianos brasileiros para divulgar sua ideologia. O cônsul venezuelano em São Paulo, Jorge Luis Duran, havia programado uma visita à sede no Rio. A propaganda chavista recorreu aos Círculos Bolivarianos para entrar em favelas cariocas e filmar depoimentos de moradores favoráveis a Chávez.
        Os chavistas brasileiros se aproximaram da Federação das Favelas cariocas e fazem palestras para líderes comunitários locais. Nesses encontros, é exibido o documentário A Revolução não Será Televisionada, que mostra os bastidores do golpe que tentou tirar Chávez do poder. “Escolhemos as favelas porque o movimento revolucionário tem de vir dos trabalhadores”, diz o líder dos Círculos Bolivarianos Che Guevara, João Claudio Pitillo. “A classe média brasileira está preocupada em morar no Leblon e juntar dinheiro para levar os filhos para ver o Pato Donald. A revolução vai começar pelas favelas.” Pitillo é uma figura bem-humorada e corpulenta, de cerca de 1,90 metro e mais de 100 quilos, que não gosta de tirar fotos. Tem 33 anos, é estudante de História na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e faz a ligação do movimento com as favelas.
        No Rio, existem sete Círculos Bolivarianos. Cada um tem, no máximo, 11 membros. A partir do 12o, um novo círculo, com área de atuação definida, deve ser formado. O professor Aurélio Fernandes diz que existem representantes em pelo menos sete Estados brasileiros. Na Venezuela, há 1.200 Círculos Bolivarianos, que recebem ajuda do governo. Fernandes nega que exista apoio financeiro venezuelano ao grupo. A penúria da sede e a falta de infra-estrutura sugerem que ele possa estar sendo sincero. “O que existe é apenas uma aproximação natural de grupos com a mesma ideologia”, diz. Aqui, segundo Fernandes, os grupos sobrevivem graças a doações dos membros. A organização tem planos de contribuições anuais com nomes de revolucionários. Quanto maior a importância histórica do personagem, maior a doação. No plano Che Guevara, a contribuição é R$ 100. No Simon Bolívar, R$ 300.
        A parceria com o governo permite que membros dos Círculos brasileiros viajem para a Venezuela. Eduardo Pinho, de 25 anos, do círculo de jovens, passou um mês lá. Sem dinheiro para a passagem direta de avião, ele pegou um vôo para Brasília e de lá seguiu de carona até a Venezuela. Pinho conta que morou na Favela 23 de Enero, em Caracas, e participou de missões do governo Chávez, como a Bairro Adentro, que leva médicos aos lugares mais pobres das cidades. “Fui ver a realidade de perto. Aqui, a gente tem somente a visão contra, divulgada pela mídia”, diz ele. Pinho se orgulha de ter participado de manifestações a favor do fechamento da RCTV, a maior rede de TV do país, crítica do governo Chávez.
        Os chavistas brasileiros querem criar o “plano de contribuição financeira Che Guevara” para se sustentar  Ele cultiva um cavanhaque no estilo Che Guevara e usa camisetas vermelhas do Partido Socialista Unido da Venezuela. Diz que conheceu os Círculos pela internet. “Estava buscando um partido político para participar, mas, hoje, no Brasil, impera a politicagem rasteira, a disputa por cargos”, afirma. “Ninguém está interessado em melhorar a vida do povo.” Pinho conta que começou a desenvolver um senso crítico e contestador com a leitura. “Li muito Agatha Christie. Os detetives dela me ensinaram a ver as coisas de vários ângulos.” Aí ganhou um pôster de Che Guevara do casal Luciano Wexell e Fernanda Brozoski, ambos de 27 anos. Havia dois anos, eles estudavam na PUC de São Paulo, quando Wexell foi à Venezuela como observador do processo eleitoral. Decidiram morar lá. Wexell foi trabalhar num projeto de integração da Venezuela ao Mercosul. Fernanda conseguiu uma vaga no Congresso Bolivariano dos Povos. “Nossos pais apóiam. É o que eles fariam se tivessem a nossa idade”, diz Fernanda.
        Perto do grupo, sozinho, o vendedor autônomo Kassim Issa, de 33 anos, observa admirado a movimentação na sala. “O povo venezuelano está lutando lá. Quero saber como posso lutar aqui”, diz Issa. Ele tem primos na Venezuela. “Eles dizem que a vida melhorou e que nunca tiveram um presidente como Chávez.” Com pequenas variações, todos do grupo acreditam que a Venezuela vive uma democracia e que Chávez é um libertador. A derrota no plebiscito, segundo eles, só serviu para provar que Chávez respeita a democracia. Para Fernandes, não se trata apenas de uma luta pelo socialismo, mas pela humanidade. “A classe dominante apela para uma propaganda desestabilizadora do regime de Chávez”, diz ele. “Para nós, é uma questão de sobrevivência. A prosseguir essa lógica capitalista de consumo desenfreado, a natureza será completamente destruída. E, sem a natureza, não existirá o ser humano. Será nossa extinção.” O bolivarianismo, para ele, é a salvação.

Bolivarianos reunidos no Rio.
Para eles, Chávez é um libertador


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