Por Marcelo Rech

Já passava de 1h da manhã desta quinta-feira quando o governo teve de engolir uma derrota política que apenas sua arrogância e miopia impediam de perceber.
 
 
 
 
Por quatro votos, deixou de prorrogar até 2011, o imposto do cheque que todos ainda insistem em chamar de contribuição.

Durante um mês, a Câmara, esse apêndice do Poder Executivo, não votou nada de relevante.

O governo mandou e sua tropa obedeceu: não se vota nada, pois a prioridade era a aprovação da CPMF no Senado. Nada poderia atrapalhar os planos infalíveis arquitetados nos gabinetes do Planalto.

Um mês sem fazer nada em prol do país, mas com os salários, as quotas e as verbas indenizatórias em dia. Os deputados já não se envergonham mais. Já não há mais cara de pau. Ontem ainda, um petista do Rio de Janeiro me dizia: “Votar o quê? Já estamos de recesso”.

Por outro lado, a oposição histérica brigava para votar medidas provisórias, as vilãs do atual governo. Lula editou mais de 300, que cumprem o papel que deveria ser do Legislativo que não legisla.

Basta assistir às sessões plenárias para medirmos o grau de importância e relevância dos discursos. É como se vivêssemos num país onde não há problemas crônicos, ou como já disse sua excelência, “com uma saúde que está próxima da perfeição”.

A oposição queria votar medidas provisórias. Criticava o governo que não permitia limpar a pauta de medidas provisórias que até outro dia, não tinham nada de relevante e sequer deveriam ter sido editadas.

Estamos mesmo no fundo do poço com uma classe política como essa. Governo e oposição verdadeiramente se merecem!

No Senado, aqueles que há onze anos patrocinaram a criação de uma contribuição provisória para arrecadar recursos para a saúde, batiam forte contra um governo que gasta demais e muito mal.

Que sustenta uma penca de apadrinhados com dinheiro público e que passou boa parte desse último mês, chantageando o país.

Sem a CPMF não haverá Bolsa Família e nem recursos para os hospitais, os mesmos que estão falidos há décadas e que nunca foram prioridades nem mesmo com o imposto.

Há onze anos começamos a “contribuir”, mas a realidade não mudou. Tudo apenas piorou. Nosso dinheiro foi drenado para os caixas-dois, os esquemas de corrupção, as propinas e para as obras superfaturadas. Neste e nos governos anteriores.

Tucanos, democratas e petistas estão juntos nessa. Não há diferença alguma entre eles. Mentem, distorcem e fazem do jogo político do poder pelo poder, a senha que dita como agir.

O povo é mero escravo de um sistema falido e onde a corrupção enraizou-se de tal forma que não tem ideologia ou estatuto. O que entra mantém e aperfeiçoa os esquemas.

Agora, sem a CPMF, mais ameaças. Vão aumentar alíquotas e tributos que não precisam passar pelo Congresso. Nos vão atirar a conta no lombo, cada trabalhador terá de comer menos para sustentar a sanha dos poderosos.

O que aumentarem das empresas, será repassado aos preços finais, ao consumidor.

E, logo, suas excelências estarão sentados à mesma mesa discutindo frivolidades como as curvas da jornalista que, a exemplo de mais de uma dezena de outras, viu num parlamentar, o caminho para a independência econômica.

Sempre pensei que para ser governo era preciso ter muita criatividade, mas a cada um que entra me convenço mais que nem mesmo estudo é preciso. Para todo e qualquer problema, cria-se um imposto, aumentam-se os tributos. Assim, fácil como dois são mais dois são quatro.

Talvez, um governo decente visse neste momento a oportunidade de calçar as sandálias da humildade e perceber que o país nunca arrecadou tanto como agora e que o cenário econômico internacional jamais foi tão favorável.

Se quiser, o governo pode acabar com o Bolsa Família, mas na carta de Lula, lida por seu líder no momento derradeiro da votação, o governo assumia o compromisso de aplicar todos os R$ 40 bilhões arrecadados com o tributo, na saúde. Isso mesmo, Lula afirmava que colocaria 100% dos recursos na saúde.

Então, alguém passou um tempão mentindo pacas, pois isso não era possível. O Bolsa Família teria de ser extinto sem esse dinheiro. Às 23h30, tudo mudou?

Também em cima da hora, outra carta, do ministro-Deus Guido Mantega, dizia que o governo aceitava prorrogar o tributo apenas até 2009 e não mais até 2011. Isso é do jogo político? Sim!

O jogo político é assim mesmo: falso, nojento, mentiroso, promíscuo.

Foram 45 votos a favor da CPMF e 34 contra. Todos os senadores estiveram presentes. Logo a fatura vai chegar ao presidente. Cargos, recursos, emendas. Os deputados já cobraram a sua. Saiu caro.

Renan cobrou a sua para deixar o caminho livre, mas deu uma boa resposta em plenário, em silêncio. Devolveu ao governo o que o governo articulou contra ele. Mas, são amigos. Não houve traição. Não existe traição na política, existe conjuntura.

Assim como suas excelências não falam em mentiras, mas em “falsear a verdade”. É assim que funciona no Congresso.

E os salários estão em dia. Os escândalos devidamente empurrados para de baixo do tapete (por isso tapetes tão grossos e grandes, azul e verde para separar o que é do Senado e o que é da Câmara).

O governo sofreu uma derrota política emblemática, mas a população não deve esperar por milagres.

Não haverá uma reviravolta na política, com mudanças de comportamento, mais ética e menos canalhice. Já na madrugada se articulavam como desgastar aqueles que derrotaram a proposta.

As mortes nos hospitais públicos vão atingir índices de genocídio. Tudo para ter em quem pôr a culpa, pois o governo não erra, está acima do bem e do mal.

 

Marcelo Rech é jornalista e editor do InfoRel

"É permitida a reprodução total ou parcial, desde que citada a fonte"

Fonte: : www.inforel.org

Adicionar comentário