O Estado de São Paulo
Ministro da Justiça garantiu salvo conduto a membros do conjunto Los Galanes, que estão com visto vencido
Angela Lacerda, RECIFE

Os músicos cubanos Miguel Angel Nuñez Costafreda, Arodis Verdecia Pompa e Juan Alcides Díaz, integrantes do conjunto musical Los Galanes, se apresentam hoje à tarde à Polícia Federal, no Recife, acompanhados do advogado José Antônio Ferreira, para formalizar pedido de asilo político ao governo brasileiro. Os três desapareceram terça-feira, após o último dos seis shows que o conjunto fez em sete dias, e não se apresentaram no embarque para Cuba, na manhã de quarta.

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Depois do último show, os músicos participaram de um jantar com simpatizantes do governo cubano, organizado por professores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Lá, os três se disseram indispostos e não provaram a comida típica servida - paçoca, carne-de-sol e suco de frutas regionais. Mais tarde, já no hotel onde estavam hospedados, em Olinda, telefonaram para um casal de professores de dança - a ligação ficou registrada - e pouco depois um carro veio buscá-los. Levando malas e instrumentos, os três desapareceram.

TEMOR DA DEPORTAÇÃO

Sexta-feira, quando venceu o visto de permanência dos três no Brasil, o advogado Ferreira entrou com pedido de habeas corpus preventivo em favor deles, negado pelo juiz Gabriel Queiroz, da 6ª Vara da Justiça Federal. Eles passaram a temer uma repetição do caso dos boxeadores Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, deportados para Cuba.

O advogado, então, foi à Polícia Federal, portando uma procuração dos músicos, e solicitou asilo político, sob alegação de que os três sofrem perseguição política e ameaça à vida em Cuba. A PF pediu que ele retornasse hoje, na companhia dos três músicos.

Depois, pediu proteção política ao deputado Raul Jungmann (PPS-PE). Ontem, Jungmann disse ter falado com o ministro Tarso Genro, da Justiça, que garantiu a concessão de salvo conduto aos músicos. Tarso viajou, mas deixou o caso sob cuidados do secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr., que mais tarde reiterou a garantia de salvo-conduto para os três. “Pode dizer publicamente que eles não serão presos nem coagidos”, disse, segundo relato de Jungmann.

O conjunto veio a Pernambuco para fazer apresentações em Recife, Garanhuns e Igarassu, com patrocínio da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) e da prefeitura do Recife. Os outros três integrantes do conjunto voltaram a Cuba com o funcionário cubano que os acompanhou ao Brasil, Salvador Santana, suposto representante do Instituto Cubano de Amizade entre os Povos (ICAP).

O conjunto Los Galanes costuma apresentar-se para turistas em Havana Velha. Nuñez, Verdecia e Diaz são músicos populares de formação erudita. Os três são casados e têm filhos. O advogado Ferreira disse que depois que obtiverem asilo eles tentarão trazer as suas famílias para o Brasil.

Nunca mais se teve notícia dos boxeadores

Carlos Marchi

No dia 4 de agosto o governo brasileiro encerrou bruscamente o nebuloso episódio que cercou o desaparecimento de dois boxeadores cubanos durante os Jogos Pan-Americanos, no Rio, no dia 22 de julho: deportou o bicampeão olímpico Guillermo Rigondeaux Ortiz e seu colega Erislandy Lara Santoya. Eles tinham fugido para pedir asilo político, mas quando foram encontrados com os vistos vencidos, mudaram repentinamente de opinião e disseram que queriam voltar a Cuba. Deixaram o Brasil num jatinho com prefixo venezuelano e não se soube mais deles, a não ser que foram banidos da equipe cubana que disputou o pré-olímpico de boxe. Ante informações de que os dois estavam sendo mantidos como presos em Cuba, o deputado Raul Jungmann apresentou à Camara requerimento para ouvi-los, mas o governo cubano disse que não permitiria.
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