Produzido pelo Ternuma Regional Brasília
Por Paulo Carvalho Espíndola, Cel Reformado

 Os dias de 2007 se vão e com eles levamos uma fieira de angústias, que, infelizmente, não vemos como não se repetirem no novel ano de 2008. Talvez seja este o meu último artigo de 2007, a não ser que os noticiários persistam em renovar a indignação freqüente nesse tempo que se finda. Tempos difíceis, num qüinqüênio em que o cinismo e o despudor nortearam a vida pública brasileira, entorpecendo, pela constância e descaramento, a consciência de um povo tradicionalmente refratário a votar bem e a escolher dignitários verdadeiramente dignos.

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Sejamos honestos: isso não foi característica de um só governo, pois Fernando Henrique Cardoso desmandou no Brasil durante oito anos, legando a Lula a “herança maldita”, que nada mais é senão a competência em extorquir, lograr e levar ao extremo a máxima de que se “a farinha é pouca, meu pirão primeiro”. O governo Lula, aliás, esmerou-se no aprendizado do mestre, superando-o em gênero, número e grau. Gênero, pela desavergonhada intenção de levar o país ao socialismo-petista-locupleratório, muito diferente daquele propugnado por uma social-democracia fajuta de um fernandohenriquismo hipócrita e corrupto (coisas absolutamente iguais, porém mascaradas por discursos absolutamente demagógicos). Número, porque os desmandos do governo atual extrapolaram o limite do suportável para cidadãos, os quais, ao contrário do supremo mandatário, sabem ler, escrever e interpretar o que lêem e vêem (só não sabem votar). Grau, já que a roubalheira alcançou níveis nunca dantes conhecidos, tornando a todos nós conluiados com tanta patifaria, pela omissão e consentido silêncio.


 Vimos, na última semana, o embate no Senado da votação da famigerada CPMF. Lula, um mês antes, diariamente, nos noticiários vociferava contra os opositores dessa “contribuição”, Dizia ele que os contrários, todos eles, eram agentes da sonegação e que desejavam levar o Brasil à ingovernabilidade. Sua verve de prestidigitador apontava para o caos da economia brasileira, caso o Senado cassasse o tributo do qual foi severo crítico quando Fernando Henrique o pariu. Mudando o discurso, em defesa dessa excrescência, Lula definiu-se como um versátil, ungido pela “metamorfose ambulante” de alguém, que, embora não fosse um grande exemplo de cidadão, era letrado e não confundia a perda do juízo com a extração do ”dente do cisne”. Lula ameaçou, mentiu e acusou a oposição de tentar sepultar os seus programas sociais, notadamente a bolsa-família.


 Incluo-me entre os contrários, conquanto eu não seja sonegador. Lembro a Lula que ele não paga imposto de renda sobre os seus ganhos de “perseguido político” e, dizem as más línguas, também não desconta CPMF sobre essa pensão. Pagam-na, todos os brasileiros, até os bolsistas dos programas sociais, pois em tudo o que se compra neste país o desditoso tributo está embutido.

 O Senado, entretanto, sepultou a CPMF. Vi, até alta madrugada, os debates da sessão senatorial. Com engulhos, fui testemunha da lamentável posição de um parlamentar, a quem considerava um homem sério, além de um notável tribuno. O senador Pedro Simon, não sei por quais propósitos, tentou levar para o dia seguinte a votação, em um eloqüente discurso no qual concitava os seus pares a refletir sobre “importante e honesto” documento assinado por Lula e dirigido ao Senado. Ocorre que se tratava de duas páginas em que o governo comprometia-se a empregar todos os recursos da CPMF na Saúde. Meras duas páginas que pretendiam mudar todo um cenário. Duas páginas que mudavam tudo e desmascaravam o cinismo da retórica da ingovernabilidade.

 Pedro Simon, desonrando um passado do qual se orgulhava, foi instrumento de manobra de uma farsa, do que Artur Virgílio, intrépido representante das hostes fernandohenriquistas, prontamente, se insurgiu, levando à lona o velho tribuno. Lamentável é que Artur Virgílio, dois dias após o massacre, declarou que seu partido via com bons olhos a reedição de um novo projeto de CPMF.

Guido Mantega, “notável” ministro da Fazenda, prontamente resolveu trabalhar, abrindo a sua caixinha de maldades para o povo brasileiro. Passou-lhe pela prodigiosa cabeça aumentar a carga tributária, cancelar os acordos de aumentos salariais ao funcionalismo público e a deixar mal um travesti de homem de farda, que jurou reaparelhar as Forças Armadas e a reajustar os vencimentos dos combalidos militares.

Lula não deixou para depois. Rapidamente, no seu discurso de camelô, declarou que o mundo não se acabara. Disse que não é irresponsável e que não admite mais carga aos bolsos dos brasileiros. Afinal, o fim da CPMF não era o fim do mundo?

Tudo isso me leva à certeza de que essa malfadada “contribuição” servia para tudo: desde o financiamento das bolsas esmolas eleitoreiras, passando pelo patrocínio da sem-vergonhice dos sem-terra, até os mensalões e outras falcatruas de que Lula não sabe ou não viu. Por que o governo, no último ato da votação do Senado, prometeu investir todos os recursos de uma CPMF na Saúde, coisa que nunca foi feita, apesar de que foi criada para isso por um FHC, o criador, que, como Lula, jamais se importou com a higidez do povo brasileiro. É só ver quantos patrícios há muito tempo morrem em macas de corredores de hospitais públicos sem médicos, sem enfermeiros e sem medicamentos.

Lula, enquanto isso, foi visitar a Venezuela e a Bolívia. Após mesuras com o ditador Hugo Chávez, o “presidente” brasileiro aconselhou o aprendiz de ditador, Evo Morález, a ter calma, ante a desordem institucional que ameaça incendiar a nação boliviana. Lula, para compensar, prometeu a Morález investir dois bilhões de dólares, no prazo de um ano na Bolívia. Disse-me alguém que Hugo Chávez teria dito a Lula, diante da recente invasão das “poderosas” forças bolivianas às refinarias da Petrobras no solo desse país: Companheiro: calla te, Bolívia es mia protegida. Assim, o Brasil curvou-se ao boliviarinismo...

 Pelo visto, a CPMF não faz falta ao Brasil ou isso é a mais nova e descarada balela desse governo sem rumo. Dois bilhões anuais para a saúde fariam um grande efeito, com ou sem essa coisa que chamam de contribuição.

Vale mais para Lula contribuir para a “causa” da socialização. Ele, consciente ou não, cria a cobra que há de morder-lhe o pescoço, levando a todos nós a um conflito indesejado.

Ficamos na espera de que Papai Noel nos traga paciência e expectativa para uma mudança nisso tudo. Aos venezuelanos, a reação diante da voracidade de um tirano. Aos bolivianos, a esperança de que esse país vença as adversidades e permaneça íntegro, curando as feridas provocadas por um irresponsável cocaleiro.

De tudo, ainda crédulo, associo-me a Lula, quando ele diz que temos de ter paciência.

 Só que a nossa, parece-nos, não é a dele.

 Nós temos compromisso com o Brasil e não somos afeitos a socialismos de qualquer ordem, ao passo que ele ainda acredita em papais noéis bolivarianos...

 

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