O que sairá dessas urna sem chaves?
Chavismo joga seu futuro 
Por Janaína Figueiredo  - O Globo - 14/04/2013  
Antigo bastião eleitoral do governo, Petare é retrato de um país que vai dividido às urnas Nas ruas da favela de San Isidro, no empobrecido distrito de Petare - um dos principais bastiões do chavismo nos últimos 14 anos - seguidores da "revolução bolivariana" fundada por Hugo Chávez convivem com eleitores do candidato opositor Henrique Capriles, que hoje disputará pela segunda vez a Presidência do país em seis meses, desta vez contra o presidente interino Nicolás Maduro. Petare, onde vivem cerca de 2,2 milhões de pessoas, é reflexo de uma Venezuela polarizada que irá novamente às urnas para decidir se a guinada ao chamado "socialismo do século XXI", iniciada pelo presidente morto em 5 de março, continuará sem ele ou chegará ao fim. Petare fica no estado de Miranda, governado desde 2006 por Capriles. É administrada pelo prefeito de Sucre, Carlos Ocáriz, chefe de campanha do candidato opositor. Nos últimos anos, a vida nesta humilde região, muito próxima da capital, ficou bem mais difícil - ponto no qual concordam chavistas e eleitores de Capriles.

A violência é algo corrriqueiro. O tráfico de drogas é cada vez maior e choques entre diferentes grupos de criminosos podem matar, na mesma noite, mais de dez pessoas, segundo explicou ao GLOBO o padre Alejandro Moreno, que mora em Petare há mais de 20 anos. A três quarteirões de sua casa está La Matica, uma "zona vermelha" do município, onde recentemente foram mortas 16 pessoas. - No ano passado foram assassinadas 22 mil pessoas em nosso país, e 96% dos crimes ficam impunes. Aqui, depois das seis da tarde as pessoas se trancam em casa - afirma Moreno, que considera a revolução bolivariana uma "revolução do consumo, mas não uma revolução social". Ele realizou pesquisas sobre o aumento da violência e assegura que a circulação de entre 9 milhões e 15 milhões de armas ilegais em todo o país (onde vivem 29 milhões de pessoas) explica, em grande medida, este flagelo que o governo de Chávez não conseguiu conter e que se transformou num dos eixos da campanha eleitoral. Maduro assegurou que, caso se eleja hoje - as pesquisas o apontam como favorito, mas com menos folga do que no início da campanha -, será "o presidente da paz". Os eleitores chavistas confiam em sua promessa e acreditam que Maduro é a melhor opção para a Venezuela, agora sem Chávez. MEDO DE PERDER BENEFÍCIOS Para a dona de casa Maria Teresa Caravallo, que colocou um cartaz com a foto do candidato do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e de vários outros partidos alinhados com a revolução na porta de sua humilde casa, "Maduro vai ganhar, porque foi o que Chávez pediu e porque é a única maneira de manter viva sua obra". Ela disse não gostar de Capriles porque seus aliados, como Ocáriz, só governam para os mais ricos. - Aqui em Petare só melhoraram os setores do município onde eles são maioria. Já Chávez foi o primeiro presidente que governou pensando nos pobres. Não podemos voltar ao passado - assegurou Maria Teresa. Sua vizinha, Felicia Mendoza, dona de uma típica bodeguita (um pequeno quiosque), confessou, falando bem baixinho, que votará em Capriles. Ela prefere evitar atritos com os eleitores chavistas, porque, afirmou, "são pessoas que não respeitam opiniões diferentes". Felicia não sabe explicar bem porque não quer a continuidade da revolução, mas o discurso de Capriles a cativou. - Gosto de como ele fala e ele disse que, se não fizer as coisas bem, vai embora, disse isso na TV - afirma. Já o estudante Franklin Figueras, de 30 anos, disse que apostará em Maduro porque os benefícios que sua família obteve nos últimos 14 anos são muito importantes e ela teme perdê-los, caso a oposição chegue ao poder. - Minha irmã ganhou seu primeiro apartamento e nós conseguimos estudar gracas à revolução. São coisas muito importantes, não podemos arriscar nosso futuro - enfatizou Franklin. - Maduro foi preparado por Chávez para governar e vai saber o que deve fazer. Em Petare, como na maioria do país, a candidatura de Maduro não despertou grande entusiasmo entre os chavistas - o que faz com que a abstenção hoje, num país em que o voto é facultativo, seja um fantasma que assombra o governo. Mas, para muitos, a continuidade do presidente interino é a única opção para o país. Nos muros de San Isidro, algumas frases expressam os sentimentos que emergiram após a morte do líder bolivariano: Chávez não morreu, se multiplicou. Intelectuais locais acreditam que o mito chavista, que ainda deve favorecer Maduro nesta eleição, vá perder força com o tempo. Na visão do diretor do jornal "Tal Cual", Teodoro Petkoff, o chavismo sem Chávez nao é a mesma coisa. - A revolução poderá continuar, mas terá de ser uma revolução mais democrática, porque o peso da oposição será cada vez maior. Se Capriles for derrotado, mas obtiver um bom resultado, o governo deverá atender as demandas da oposição. Sem Chávez, o chavismo precisará democratizar-se, mesmo que seja lentamente - afirma. Como muitos moradores de Petare, Petkoff considera que esta campanha foi uma batalha difícil para Capriles, que, mais uma vez, teve de enfrentar "um candidato com todo o poder do Estado em suas mãos". Mesmo assim, o jornalista se diz otimista, porque acredita que a Venezuela está caminhando para para tornar-se novamente uma república com divisão de poderes, ganhe quem ganhar. - O culto a Chávez irá diminuindo. Ele será lembrado, claro, será muito importante em nossa História, mas, depois desta eleição, chegará a hora de assumir os problemas do país e o culto ao presidente falecido não poderá continuar sendo usado para fugir de uma realidade dramática - defende. "A revolução é uma MENTIRA" Os eleitores da oposição sabem que não é fácil derrotar o chavismo, mas nas últimas duas semanas voltaram a ter esperanças. O caminhoneiro Fernando Espana, de 51 anos, outro morador de Petare, é um deles. Ele confia nas promessas de campanha de Capriles, acha que o candidato da oposição combaterá a violência, a inflação e conseguirá, segundo ele, "tirar o país do buraco em que está". - Está vendo esses rapazes? São jovens que não trabalham nem estudam, cada dia vemos mais - comentou Fernando, enquanto caminhava por uma rua de Petare. - A revolução é uma grande mentira. Meus filhos estudam porque eu trabalho e, se eu não trabalhar, ninguém resolverá meus problemas. Os que ganham casas não são donos dessas casas. Para mantê-las, devem ir a atos do governo e votar no governo. Isso não é revolução. Amanhã, metade de Petare estará aliviada. A outra metade deverá digerir a derrota. As divisões na Venezuela pós Chávez são profundas e o futuro presidente deverá governar com elas. 

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