Paulo Brossard
Zero Hora - Porto Alegre


Estava inclinado a escrever sobre assunto do nosso dia a dia quando me vi envolvido, ainda que de longe, pelo brutal sucesso ocorrido em Boston. Mais de 20 mil pessoas, provenientes de mil lugares, participavam da maratona que sucede naquela cidade desde 1897 e 500 mil espectadores são atraídos anualmente para acompanhá-la.

 

Pois nesse local e nessa ocasião duas bombas de alto poder destrutivo foram detonadas, 168 metros uma da outra e com o intervalo de 10 segundos entre ambas, lugar cheio de gente; a maior parte dos participantes, cerca de 17,5 mil, já havia transposto a linha final da corrida, mas uns 5 mil ainda estavam na altura em que as bombas explodiram; mortos e maior número de mutilados, foi o saldo dessa insânia. Estes dados são bastantes para dar ideia da catástrofe.

Enfim, a violência arrasadora e o horror subsequente levaram a segurança a converter-se em hipótese distante e duvidosa e era inevitável que o fato lembrasse outro, ocorrido quase 12 anos antes, do World Trade Center, cujos danos imateriais e materiais foram assustadores. Não se conhecia precedente semelhante. Dois aviões, pilotados não sei por quantos, tomando o endereço da morte sem apelo se haviam jogado contra as imensas e modernas construções que seriam símbolo da maior cidade americana; levados pelo paroxismo da paixão ou o fanatismo das crenças tomaram o caminho da morte para destruir também o que de imaterial elas pudessem simbolizar; naquele momento uma onda de estupor fez o mundo parar por um instante. Mas à perplexidade seguiu-se a consciência de que a face do universo havia sido lanhada. A tranquilidade da segurança do país mais desenvolvido e poderoso sob muitos aspectos, inclusive o da segurança interna e externa, restara estilhaçada num abrir e fechar de olhos. Os Estados Unidos sofreram na carne e na alma a lesão inimaginada. Mas o resto do mundo, querendo ou não, também foi alvejado, uma vez que, com os novos procedimentos, ninguém poderá dizer-se seguro.
Pois bem, foi junto a Boston, capital de Massachusetts, onde se ergue a mais que tricentenária Universidade de Harvard, uma das mais antigas e afamadas instituições universitárias da América do Norte, fosse a escolhida para testemunhar que o terror não estava extinto. O flagelo de agora pode parecer modesto se comparado aos danos causados na investida contra as Torres Gêmeas de Nova York, mas serviria, quando menos, para certificar a permanência do foco selvagem. Em termos quantitativos foi uma operação menor, mas sua materialidade foi suficiente para demonstrar que a chaga permanece viva, à semelhança de um vulcão que quando menos se espera entra a desfazer-se de suas lavas mortais.
Até o momento em que escrevo não tenho elementos suficientes para avaliar a origem e finalidade dessa insânia. Será de denominada organização terrorista, será dela um braço ou um grupo escoteiro a promovê-la por conta própria? De qualquer forma, pode ser novo ou não, e seus efeitos diferentes e até mais perigosos dos antes conhecidos. Num mundo de conflitos imensos e de soluções complexas irrompe um fato que não é bom e pode ser ainda pior.

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