Editorial -  Folha de São Paulo – 04/05/2013
As cenas de pugilato protagonizadas por deputados venezuelanos dão prova de que está longe de amainar a tensão política deflagrada logo após as eleições presidenciais de 14 de abril.
Derrotado por menos de dois pontos percentuais de diferença, o oposicionista Henrique Capriles recusa-se a reconhecer o resultado. Nicolás Maduro, o vitorioso herdeiro escolhido por Hugo Chávez, seria, segundo Capriles, um presidente ilegítimo.

Protestos antichavistas foram realizados nos dias seguintes ao pleito, deixando, de acordo com informações oficiais, um saldo de sete mortos. Em meio aos distúrbios, o Conselho Nacional Eleitoral anunciou que faria a recontagem de todos os votos, e não de apenas 54% deles, conforme o procedimento padrão na Venezuela. 

Dificilmente o resultado será alterado. A própria oposição pouco espera do procedimento. Para Capriles, as fraudes --comuns em regimes autoritários como o chavista-- não estariam na contagem dos votos, mas na coação de eleitores. 

Com esse argumento, a oposição agora pede ao Tribunal Supremo de Justiça a invalidação do processo eleitoral. Dado o alinhamento da corte com os chavistas, são nulas as chances de sucesso desse recurso. Trata-se, ainda assim, de caminho mais adequado do que acirrar manifestações de rua, o que poderia dar pretexto ao regime para alguma aventura. 

Por arriscadas que possam parecer as atitudes de Capriles, nada justifica a resposta do governo venezuelano. A imagem do olho inchado do deputado oposicionista Julio Borges é o retrato mais acabado da truculência chavista. 

Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional, comanda a retaliação contra a oposição. Partidários de Capriles foram destituídos da direção de comissões parlamentares, viram seus salários sob ameaça de corte e tiveram, por duas vezes, o direito à palavra negado em sessões do Legislativo. 

O silêncio imposto aos antichavistas serviu de estopim para uma briga parlamentar. Sopapos foram desferidos por deputados dos dois lados --pelo menos 22 políticos saíram feridos, a maioria de oposição. 

Mais que o patético episódio de violência física, o que preocupa é o endurecimento das reações governistas. O presidente Nicolás Maduro e seus asseclas, sem contar com o carisma pessoal de Hugo Chávez, demonstram pouco receio de recorrer a uma escalada de intimidação com o propósito de ocultar as fragilidades do próprio poder. 

 

 

Comments powered by CComment