Por Inês Teotónio Pereira (escrito em português de Portugal e traduzido para o português do Brasil por Francisco Vianna) 

            Não sei se são só os meus filhos que são socialistas ou se são todas as crianças que sofrem desse mesmo mal. Mas tenho certeza do que falo em relação aos meus. E nada disto significa 'deformação educacional', uma vez que têm sido insistentemente educados no sentido inverso. Mas a natureza das criaturas resiste à benéfica influência dos pais da mesma forma que a pequena aldeia da Armórica, na Gália, de Obelix e Astérix, resistiu à cultura dos conquistadores romanos. Os garotos são estoicos e defendem com incrível denodo a bandeira marxista sem fazerem a menor ideia de quem foi o seu criador. 

           Ora, o primeiro sintoma desta "deformidade ideológica" chamada socialismo tem a ver com os seus alegados 'direitos'. Os meus filhos só têm direitos. Direitos materiais, emocionais, futuros, ambíguos e todos eles adquiridos a partir do momento que vieram ao mundo. Todos eles absolutamente adquiridos automaticamente por simplesmente terem sido gerados. Eles têm, como direitos adquiridos, o divertimento, as férias, o transporte pelo carro do pai ou da mãe para irem à escola, a escola em si, os tênis novos, o computador, a roupinha lavada, a TV e até eu. Deveres? Não.  Isso absolutamente elas não têm. Quanto muito lavam um prato por dia ou puxam o edredom da cama para cima, e pouco mais, que fazem apenas quando têm o interesse de obter alguma vantagem imediata. Vivem literalmente de mão estendida sem qualquer vergonha ou decoro. Na cabecinha socialista deles não existe o conceito de bem comum, mas apenas o do “bem comum deles”. Muito, muito particularmente deles. Dizer para eles que "os direitos devem corresponder e serem substanciados por deveres e obrigações correspondentes" é falar em grego com eles, da mesma forma que ocorre com os adultos socialistas. 

            O segundo sintoma tem a ver com o aparecimento desses direitos. Como surgem esses direitos? Não sabem, nem elas nem os políticos socialistas. Sabem apenas que basta abrirem a torneira para que a água venha quente, que dentro da geladeira tem invariavelmente leite fresquinho, que os livros da escola aparecem encadernados e enfeitados todos os anos, que os carros dos pais têm sempre gasolina e que o dinheiro nasce na parede onde estão instalados os terminais automáticos dos bancos. A única diferença entre eles e os socialistas adultos, com cartão de militante e tudo mais, é que, justiça seja feita, estes últimos já não acreditam mais na parede – sabem que o dinheiro vem dos otários pagadores de impostos e que o estado nunca vai a falência, antes metendo a mão no bolso de quem trabalha e produz e tirando de lá o que precisa e, muitas vezes, até o que não precisa. 

            Outro sintoma alarmante é a visão de futuro. O futuro para os meus filhos é qualquer coisa que vai ocorrer logo à noitinha, o mais tardar amanhã de manhã. Eles não vão mais longe do que isto. Na sua cabecinha não há planejamento, só gastança, só o imediato. Se há o que comer, come-se, o que gastar, gasta-se... Esgota-se tudo, e depois as coisas se resolverão. Típico deles e dos governantes socialistas, pois não? Poupar não é com eles. Um saco de guloseimas ou uma caixa de chocolates deixada no meio da sala da minha casa tem o mesmo destino que um crédito de milhões a ser repassado pelo governo centralizador socialista para o município: evapora-se quase todo a meio caminho. E não foi ninguém... Ninguém sabe, ninguém viu, e tudo é "intriga da oposição"... 

            O quarto tique socialista das minhas crianças é estarem convictas de que nada depende delas. Como são só crianças, acham que nada do que fazem tem qualquer importância ou consequências. Ora, esta visão do mundo e da vida faz com que os meus filhos achem que podem fazer todo o tipo de asneiras que alguém irá depois apanhar os cacos e dar um jeito em tudo. Exatamente como pensam os políticos marxistas.  Nas pouquíssimas vezes que ficam de castigo, é certo, reagem exatamente como os políticos de esquerda quando perdem as eleições, ao invés de aprenderem a lição põem a culpa no imperialismo americano, ou seja, eu. Mas sou eu, de fato, que tenho que arrumar tudo. Os meus filhos nasceram desresponsabilizados. A responsabilidade é sempre de outro qualquer, menos deles: é o outro que paga, o outro que assina, o outro que limpa e esse outro - geralmente eu - está sempre à direita deles. No caso dos socialistas militantes e no poder o outro é sempre o governo que passou ou o seguinte e a culpa é sempre do capitalismo, ou seja, de quem realmente gera o trabalho e a riqueza e põe comida na mesa deles. 

            Por fim, o último, mas não menos aterrorizador sintoma muito socialista dos meus filhos, é a inveja: eles não podem ver nada que já querem. A sua noção de propriedade privada se restringe ao que cada um tem, mas o que é dos outros deve ser público e do que podem se apropriar. Acham que têm de ter tudo o que os colegas têm, quer mereçam ou não. São autênticos nouveaux-riches e não se discute. Acham que todos têm de ter o mesmo e, se não dá para repartir, que ninguém tenha. Ou comem todos, ou não come nenhum. Senão esbravejam que irão à luta. Eu não posso dar mais dinheiro a um do que dou a outro, ou tenho o mesmo destino que o czar Nicolau II. Mesmo que um ajude mais que outro, se dedique mais aos estudos e tenha melhores notas no boletim escolar, a “cultura igualitária socialista” em minha casa não permite essa diferenciação por méritos. Os meus filhos chamam a esta inveja disfarçada de 'justiça'; já os socialistas deram-lhe o nome de 'justiça social'. 

            A minha sorte é que os meus filhos crescem. Já os socialistas permanecem crianças a vida inteira.

 

 

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