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Categoria: Corrupção
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Gustavo  Ioschpe (Folha de São Paulo 04/06/06)

 "O que beira as raias do chocante é que a sociedade  brasileira tenha aquiescido e aquietado-se. Que tenha aceitado mansamente escândalo depois de escândalo."

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O mais surpreendente destes  doze meses em que começamos a chamar parlamentares de "mensaleiros" não é que uma fatia aparentemente expressiva de nossos deputados recebesse uma mesada para  votar com o governo. 

Nem que os deputados achassem que podiam se  inocentar desse crime através da confissão de outro (caixa dois). Nem que  eles  efetivamente tenham sido inocentados. 

Nem que um deles tenha conjurado  para sua absolvição uma trama certamente demasiado rocambolesca para ser aceita  no mais mexicano dos folhetins: a esposa foi ao banco pagar a conta da TV a cabo  e saiu de lá com 50 mil reais. (Nota minha: era "somente" o  Presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo  Cunha) 

Nem que o escárnio tenha chegado a tal ponto que  uma  congressista tenha se sentido suficientemente à vontade no ambiente prostibular  que se tornou o belo prédio de Niemeyer para desfilar seus desajeitados passos  do funk da sem-vergonhice. 

Nem que recursos de empresas estatais fossem  uma fonte do numerário usado para alimentar os mensaleiros, configurando um novo  e tenebroso nível de estelionato no país, em que os recursos do Estado são  utilizados para irrigar um partido a chegar e manter-se no poder, solapando a  isonomia que é a essência do regime democrático. 

Nem que o marqueteiro do presidente  tenha reconhecido, aos prantos, que recebeu dinheiro no exterior -uma única  vez!- para realizar a campanha política de petistas. Nem que depois  tenhamos  descoberto que aquela não havia sido a única. 

Nem que, do "núcleo duro" do governo, um  membro tenha sido cassado e indiciado por suspeita de chefiar a máfia, outro  tenha sido forçado a pedir demissão e tenha também sido indiciado por abiscoitar  propinas em seus tempos de prefeito e o terceiro tenha abandonado seu ministério por negócios escusos com um familiar. 

Nem que um ministro da Fazenda  tenha entrado em conluio com o presidente do segundo maior banco público do país  para violar o direito à privacidade de um caseiro e divulgar seu sigilo bancário  à imprensa. 

Nem que o procurador-geral da República  tenha oferecido denúncia contra 40 das mais altas cabeças da República por  formação de quadrilha e tenha chamado o partido ora no poder de  sofisticada  organização criminosa".  

Nem que dinheiro público tenha aparecido  numa cueca em um detector de metais de um aeroporto. 

Nem mesmo que o nosso presidente -aquele  que nomeou e chefiou toda a gangue e que tem ao seu dispor todo o aparato de  informação e inteligência das forças de investigação civis e militares consiga se manter no cargo única e exclusivamente por alegar  desconhecimento de tudo e todos que estavam à sua volta e que foi traído. (Em  outros países, desconhecimento, autismo e ingenuidade desqualificam a pessoa para o exercício da Presidência. No Brasil, tornam-na favorita para a reeleição.) 

Não. Tudo isso é grotesco, é  revoltante, é pusilânime, é roto e vergonhoso. 

Mas não chega a ser  surpreendente porque, infelizmente, a única coisa que nos surpreende em nossos homens públicos é a correção, a ética, a honestidade. 

O que é verdadeiramente surpreendente,  o que beira as raias do chocante é que, envolta e soterrada por essa avalanche  de esterco, enganada e vilipendiada por seus representantes eleitos e sabendo  que os contos da carochinha contados por eles em sua defesa não passavam de  empulhação da grossa, a sociedade brasileira tenha aquiescido e aquietado-se.  Que tenha aceitado mansamente escândalo depois de escândalo. Que tenha relevado aquilo que povos sadios teriam visto como acinte. Que num país de 180  milhões de almas penadas não tenha havido um partido, um sindicato, um grêmio  estudantil, uma ONG ou uma roda de bocha sequer com a disposição de ir às ruas,  de convocar uma passeata, de jogar um mísero tomate ou dar um grito solitário  contra essa patifaria que nos confisca a nação. 

Com o silêncio,  tornamo-nos cúmplices. Por que essa inação? Será que as duas décadas de miasma  econômico nos deixaram suscetíveis a acreditar que um crescimento econômico que  só superou o haitiano é realmente uma boa performance? Nos vendemos por tão  pouco? Ou será que a fadiga com o sistema político chegou ao ponto da total  indiferença? Será que depois de apostarmos na redemocratização, no  presidente-carateca, no presidente-sociólogo e no presidente-operário e vermos  nossas expectativas cada vez mais frustradas finalmente abandonamos o barco? 

Não sei. O certo é que esses últimos doze  meses, esses sombrios e desalentadores doze meses marcam a nossa desistência.  Lavamos as mãos.   

Daqui pra frente nossa democracia será como aqueles  casamentos em que os cônjuges mal disfarçam sua infidelidade. Permanecem casados  por um misto de conveniência e obrigação, mas ambos sabem que nenhuma das partes pode ser confiada, nem tampouco que cabe qualquer indignação frente aos abusos e omissões do outro. Os eleitos nos enganam e os eleitores tentamos burlar leis,  sonegar taxas e tratar a urna como penico, e ficamos acertados que ninguém  denunciará as impropriedades do outro. 

Estamos num grande e árido  deserto, sem ninguém que possa nos conduzir pelo mar vermelho-lama que cada vez  ocupa mais espaços. Talvez um dia nosso povo chegue à Terra Prometida, mas não será nesta geração. 

GUSTAVO IOSCHPE , 29, mestre em desenvolvimento econômico pela Universidade Yale (Estados Unidos), é autor de "A Ignorância Custa um Mundo - O Valor da Educação no Desenvolvimento do Brasil" (Editora Francis, 2004) e "Vestibular Não é o Bicho" (Editora Artes e Ofícios, 1996). Foi colaborador da Folha nos cadernos Fovest (1996-1997) e Folhateen (1997-2000).

• Graduado em ciência política e administração estratégica em Wharton School, na Universidade da Pensilvânia
• Mestre em economia internacional
E desenvolvimento econômico pela Universidade Yale (EUA)
• Um dos ganhadores do prêmio
Jabuti 2005
• Atualmente presta consultoria ao MEC em um trabalho organizado pelo Banco Mundial

 

Fonte: http://artigos.wordpress.com/2006/06/04/o-ano-em-que-desistimos-FSP-04062006/

Consultada em 27/08/06 às 10:30 hs