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Atuação da Igreja junto à ALN / Guerra Psicológica

Em 1969, a  ALN cada vez mais se estruturava para expandir a guerrilha por todo território nacional e para isso contava com o apoio de setores do meio estudantil, operário e de  alguns membros   da Igreja.  Já dispunha de  uma rede  de atendimento médico, de uma casa de recuperação  no litoral, de área de homizio em Ribeirão Preto. Uma dessas bases de apoio era a casa do industrial  francês Jacques Emile Frederic Breyton,  na Rua Souza Ramos, 17, Vila Mariana, que era usada para reuniões do comando da organização e festinhas de confraternização.
Já era grande o número de militantes  que praticavam ações armadas (assaltos, atentados a bomba, “justiçamentos”, seqüestros) e, simpatizantes, que davam apoio aos subversivos  (esconderijo, entrega de correspondência, transporte de armas, tratamento de feridos, local para reuniões,  etc).

Entre essas  redes de apoio e  sustentação os  dominicanos do Convento das Perdizes desempenhavam importante papel .  O contato entre a ALN e os frades era feito por Paulo de Tarso Venceslau, que  acumulava as funções de coordenador do setor logístico  com  essa função. 


Frei Beto 

Frei Beto e a Subversão 

 Entre os dominicanos , Frei Beto era um  dos mais atuantes na rede de apoio à guerrilha.  Tinha livre trânsito entre algumas organizações subversivas ( Vanguarda Popular Revolucionária – VPR -,  Movimento Armado Revolucionário – MAR - e Aliança Libertadora Nacional – ALN-).  Bastante comprometido com a subversão,  ao ser preso um militante da VPR, Frei Beto,   por medida de segurança, abandonou sua  residência e   com o beneplácito  do  Provincial   da Ordem , Frei Domingos Maia Leite, foi transferido para o Seminário Dominicano Christo Rei, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, onde logo Marighela lhe determinaria novas missões. Seria o  encarregado do esquema  de fuga e passagem de militantes clandestinos pela fronteira para o Uruguai.

O sistema funcionou. Frei Beto recebia ligações telefônicas  de São Paulo, feitas por Frei Fernando, avisando-o que ia ser contatado. Usando senhas combinadas, encontrava o militante em São Leopoldo e o alojava na Igreja da Piedade. De São Leopoldo era transportado para Santana do Livramento, fronteira com o Uruguai, de onde seguia para Montevidéu .

 Por lá, apoiados por Frei Beto, sairam do Brasil : fugitivos; militantes que iam fazer curso de guerrilha em Cuba; e guerrilheiros que iam manter contatos com outros militantes em países da América do Sul - Chile, Argentina -, para que novas operações fossem planejadas e realizadas na volta ao Brasil.

Com esse apoio foram retirados do país, entre outros: José Roberto Arantes Almeida, Carlos Henrique Knapp, Eliane Toscano Zamikhowski, Joaquim Câmara Ferreira, Ana Maria Soares Palmeira, Sebastião Mendes Filho e Arno Preiss. Uma operação dessas que não deu certo foi a de  Joseph Berthold Calvert  que foi preso na fronteira, em 26 de outubro, não conseguindo atingir o Uruguai.

Muitos foram os religiosos, ligados aos dominicanos, que se envolveram com a luta armada, entre eles, além dos já citados:

Frei Osvaldo

Frei Ivo

Frei Bernardo Catão

Frei Giorgio Calegari

Frei João Antonio de Caldas Valença

Frei Roberto Romano

Frei Tito de Alencar Lima

Padre Veríssimo

Padre Manoel Vasconcellos Valiente

Padre Marcelo Pinto Carvalheira

Seminarista Francisco Castro

 

 


 Mariguela

Ações psicológicas 

Marighela tentava despistar o financiamento vindo de Cuba, e justificava os recursos da organização, como conseguidos  unicamente por meio  de assaltos a bancos.

Usando a tática da guerra psicológica, com o objetivo de atemorizar a população e desmoralizar as forças de repressão, eram freqüentes os ataques a sentinelas de quartéis, viaturas e radiopatrulhas.  Embora esses soldados e policiais militares estivessem em dupla, apanhados de surpresa, era fácil desarmá-los, queimar as viaturas, tomar-lhes as armas  e humilhá-los na frente da população. Algumas vezes, num requinte de crueldade,  alguns   eram mortos, depois de desarmados.  A repercussão desses fatos, inexistentes naquela época, visava criar o medo e a demonstrar o poder da organização subversiva e a ineficiência  dos meios de repressão. Essas ações não tinham objetivo maior do que a propaganda  da luta armada.

 Bombas explodiam  frequentemente. No dia 25 de junho,  foi colocada uma bomba na barraca do Exército, instalada na feira do livro, na Praça Saens Peña, no Rio de Janeiro. Felizmente, para  a multidão de inocentes que visitava a feira, por uma falha no mecanismo, a bomba não detonou.

Continuando a guerra psicológica, em 15 de agosto, um comando da ALN, de doze elementos, tomou de assalto os transmissores da Rádio Nacional, em Piraporinha, no município de Diadema, SP. Nessa ação, além de  tomarem o revólver do guarda  Raymundo Salustiano de Souza,  espancaram o operador chefe Libório Schuck. Na ação  os terroristas colocaram no ar  uma fita  gravada  por Gilberto Luciano Beloque, com um manifesto de  Marighela. Na mensagem, Marighela conclamava os militantes para o prosseguimento  e intensificação das ações terroristas na cidade. Segundo sua teoria, se as tropas se mantivessem ocupadas  desviariam a atenção da zona rural, onde a guerrilha começava a ser implantada.

Ainda em agosto, a vitrine do Mappin  foi metralhada , por expor uma  homenagem ao Exército.
Prosseguindo suas atividades  de guerra psicológica, a ALN  enviou às autoridades de São Paulo, dias antes  do 7 de setembro, um manifesto exigindo que fossem suspensas todas as solenidades  da Semana da Pátria no Vale do Anhangabaú. A organização ameaçava realizar atos terroristas contra a população, responsabilizando as autoridades pelo que ocorresse.

Era raro o dia em que, em São Paulo , uma ou outra organização não praticasse atos de terrorismo ( ataques a ônibus , viaturas militares, depredação de bens públicos, atentados a bombas , panfletagem armada  em favelas, universidades, etc.).  A população , acostumada com a tranqüilidade daquelas décadas, estava atemorizada.

Os jornais,  defrontando-se com essa nova situação de insegurança, publicavam editoriais , como o  transcrito abaixo :

“Consciência Geral

O desvario terrorista não mede conseqüências. Pouco lhe importa as vítimas que vai deixando pelo caminho, desde que atinja os seus objetivos imediatos de precário rendimento contestatório. Este é um dos seus aspectos mais cruéis: a insensibilidade com que, nos seus transbordamentos, envolve, de repente, o homem de rua, o transeunte pacato, a mãe que leva o filho consigo.

A ação terrorista não se limita a entrechoques eventuais com agentes da lei. É uma guerra declarada à sociedade, na medida em que, criando um clima geral de insegurança, arrisca vidas anônimas.

O repúdio da família brasileira ao terrorismo, manifestado desde seus primórdios no País, não a isenta, infelizmente, de uma participação maior no quadro geral das responsabilidades convocadas para combatê-lo. Da mesma forma, não a impede de, eventualmente, sofrer na própria pele os efeitos dessa luta.

No momento em que as ruas se transformam em palco de escaramuças sangrentas, com o sacrifício até de crianças e mães de família habituadas a uma paz de espírito agora ameaçada, cabe a todos nós reforçar conceitos de deveres e responsabilidades em função da tranqüilidade coletiva. A consciência geral terá de despertar com urgência para a triste constatação de que está diante de uma ação alucinada de grupos minoritários que requer medidas especiais de resguardo.

A família brasileira precisa colocar-se à altura desse instante inquietador que não deve e não pode perdurar, não obstante a soma atual de maus presságios. E somente será digna dessa nova convocação quando começar no ambiente dos seus lares a tarefa geral de pacificação dos espíritos e desarme das atitudes radicais fundamentadas no ódio.”

Jornal do Brasil - 14/03/1970.

Fontes: Orvil e A Verdade Sufocada - A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça

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