Por Villas-Bôas Corrêa - Do JBOnline
Na sua celebrada modéstia, o presidente Lula tem os seus momentos em que costuma abrir a guarda e transitar pela exaltação dos feitos do seu governo, sempre qualificado como os maiores do mundo e em todos os tempos. Pois foi um desses instantes de euforia, na oficialização do acordo com o PMDB - parceiro perfeito para as previsíveis dificuldades de um ano eleitoral - que o nosso iluminado dirigente viveu na posse do novo ministro de Minas e Energia, o experiente, sensato e conciliador senador maranhense Edison Lobão.

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Posse de arromba, com a cúpula peemedebista em peso, não apenas presente, mas participante, na excitação dos diálogos que giraram sobre o rateio de um ministério de cutucar a inveja de legendas menores, que disputam as sobras de fim de feira.

Ninguém mais desembaraçado e à vontade, como mestre-sala em desfile de rancho, que o senador Waldir Raupp, líder da bancada no Senado. Falante e efusivo, comemorava o lucro do partido que está levando uma pasta que gerencia bilhões e, com porteiras abertas ou cerradas, está conseguindo abocanhar as mais cobiçadas fatias do bolo: o controle da Eletrobrás e da Eletronorte ao modesto custo da entrega da Eletrosul para a senadora Ideli Salvatti, líder do PT. Afinal não era possível deixar o PT fora do glorioso período que se abre para o PMDB, afinal parceiro do governo, na plena fidelidade aos seus princípios e à sua história.

Mas, na festa do PMDB, o presidente não é um convidado, mas a principal figura e com um desempenho que fez justiça à sua badalada esperteza.

Enquanto o senador Waldir Raupp detalhava a cota partidária, com destaque para o quinhão de uma diretoria da Eletrosul reservado para o ex-governador de Santa Catarina, Paulo Afonso, Lula assumiu a tribuna e enquadrou o novo ministro, enfim nomeado depois de longa espera e de sobressaltos, com a exuberância de elogios que apagam as marcas das intrigas e da insônia das dúvidas.

Fez um cafuné que raspou na imprudência ao desmentir que "ficara chateado com a sua indicação, diante da série de denuncias envolvendo o seu filho Edison Lobão Filho e as empresas da família".

Certamente que a ministra Dilma Rousseff, com toda a malícia feminina e a segurança de quem sabe onde pisa, estava à vontade e achando uma imensa graça nos destemperos oratórios do desfile da festa.

No discurso escrito e no arranque do improviso, o ministro Edison Lobão achou jeito de colocar alguns pingos nas intrigas que "a todo instante tentou-se fazer entre ele e ela". Ela é a sorridente ministra Dilma Rousseff, a candidata preferencial de Lula para sucedê-lo. Voltamos ao orador: "A ministra Dilma jamais indicou ou vetou nomes para o ministério". Passou da conta no embalo: "Dizem que ela está tutelando o ministério, mas eu digo que ninguém tutela o ministro das Minas e Energia, a não ser o presidente Lula".

Felizmente, a coisa parou por aí. Abraços, tapas nas costas, cumprimentos como em fim de transação em que todos acreditam que fizeram um bom negócio.

Convém parar um pouco para a avaliação crítica de tais exageros e do mergulho de cabeça do governo nas águas poluídas da barganha mais descarada e ostensiva de ministérios e autarquias, loteadas em troca da promessa de votos, sem qualquer cuidado na escolha dos responsáveis pela administração dos bilhões do Plano de Aceleração do Crescimento, o PAC de tantas obras prometidas mas empacadas, e os riscos potenciais de escândalos de um novo festival de CPIs.

E de o tiro sair pela culatra.

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