ROBERTO DAMATTA - O GLOBO
E lá vou eu falar novamente, mas sem nenhum gosto, de corrupção. Alguns leitores certamente pensam que eu me deleito ao ler nos jornais que, em depoimento prestado à Justiça no dia 25 do mês passado, o ex-tesoureiro do PT Delubio Soares inclui toda a executiva nacional petista na dívida não contabilizada de 26 milhões e que, dias depois, no inicio do mês corrente, Marcos Valério, o operador do mensalão, confirma que a cúpula do Partido dos Trabalhadores sabia dos empréstimos; ou que fico feliz ao ver a carnavalização dos gastos sem controle e racionalidade com cartões de crédito por parte do governo. Ledo engano, projeção deslavada. Eu lamento muitíssimo. Para mim, todos os governos dariam certo, pois - sendo um basbaque - eu quero o bem do Brasil.

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Como chegar perto disso?
Começando por entender que a política partidária é um dos elementos da cultura brasileira e não o contrário. O importante não é o país ser guiado por uma pessoa, corporação ou partido, tornando-se parecido ou igual a essa agremiação, mas situar o partido como um meio para tornar o Brasil um país mais moderno e mais justo, o que só poderá ocorrer quando a sociedade brasileira for menos hierárquica e menos apaixonada por títulos, palácios, comilanças com dinheiros públicos, frotas oficiais, cartões corporativos, condescendências com áulicos e companheiros de agremiação etc...
Enfim, com tudo isso que faz parte do nosso estilo autoritário de imaginar e exercer o poder. Um estilo que, na sua prática suntuosa, perdulária e aristocratizante (a lembrar o Negara indonésio descrito por Clifford Geertz), pois quem lá entra e, conseqüentemente desfruta um estilo de "nobre" de existência, acaba vivendo uma iniludível contradição entre os ideais modernos (austeridade, justiça para todos, honestidade e eqüidade diante dos bens públicos) apregoados pelas agremiações políticas e as suas ações concretas quando seus domicílios passam das salas modestas onde exerciam oposição, para os palácios onde - eleitos - residem e mandam como governantes. Diria que um dos axiomas mais claros do poder à brasileira, tem a ver com esse desejo ou projeto consciente segundo o qual o partido deve englobar o governo. E quem manda no partido, manda no governo cujo governante "cuida" do país. Graças a esse princípio, fica complicado distinguir o Estado como máquina administrativa, com objetivos e interesses a longo prazo e com os quais todos estão de acordo; dos partidos, cuja vida e objetivos são muito mais imediatos do que os da nação e com os quais deve-se discordar. Um outro axioma é o constituído pela famosa e sempre usada expressão: "eu não sabia...". Sobretudo quando o sujeito do enunciado faz parte de uma organização política fechada, preocupada com suas metas, com sua pureza ideológica, e com suas fronteiras. Como realizar a ponte entre o partido ideologicamente preocupado com seus muros e palavras de ordem, com suas teorias sobre a vida social e econômica, e a sociedade que esse partido administra quando se abre para todos os setores da coletividade depois da vitória eleitoral? Como operar essa dialética entre o fechamento e a abertura; exceto pela divisão entre um público interno (que tudo sabe) e um, outro, externo, para o qual se tem razões que, obviamente, a razão partidária se permite desconhecer?
Como conciliar uma prática social baseada no coletivo e na totalidade, de preferência nas suas manifestações esmagadoras e agressivas, com erros, malversações, desfalques, incompetências, inapetências e ignorância individuais, se não por uma preferência patológica pela intransparência, pelo descaso para com a inteligência nacional e pela mentira?
Vejam a contradição: o grupo tem sempre razão; o indivíduo isolado é continuamente culpado quando as coisas vão às favas. Ou seja: o indivíduo, com suas percepções e iniciativas, só serve como fonte de erro e culpabilidade. Um terceiro axioma é bem conhecido, mas pouco explicitado. Ele diz o seguinte:
"O que é bom para nós, é bom para o Brasil."
Se sabemos o que é bom para o povo, se estamos com os oprimidos, se o Brasil está doente de "tudo isso que aí está" e temos certeza dos remédios, por que então não utilizá-los, mesmo se eles não são convencionais?
Por que perder tempo com negociação e reformas, se temos a certeza política de que podemos chegar a um ponto zero; a um estado primordial de recomeço da própria vida social, mas sob o nosso controle?
Se sabemos o remédio, por que esperar?
Uma variante desse axioma, escreve-se assim: o que é bom para mim, é bom para o Brasil. Nele, encontramos a visão da coisa pública como sendo propriedade de quem governa e "toma conta" dos recursos disponíveis para "fazer" isso ou aquilo. A colagem do papel à pessoa do governante; e, de ambos, ao gerenciamento da coisa pública, legitimada por uma rotina governamental aristocratizada, leva de volta ao primeiro axioma: o Brasil não é governado, é possuído e mandado.

ROBERTO DAMATTA é antropólogo.

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