O Globo - 15/08/2013
Editorial 

 Toma posse hoje o novo presidente do Paraguai, Horacio Cartes, do Partido Colorado, com o país suspenso do Mercosul. A decisão foi tomada por seus parceiros no bloco - Brasil, Argentina e Uruguai -, que consideraram "golpista" a destituição do presidente Fernando Lugo em 22 de junho de 2012 pelo Congresso paraguaio, por "mau desempenho de suas funções". Brasília, Buenos Aires e Montevidéu alegaram que Lugo não teve respeitado o direito de defesa. E, tão logo o Paraguai foi suspenso (também da Unasul), os três governos aprovaram o ingresso da Venezuela no Mercosul, sem o consentimento do Senado paraguaio, única instância que ainda não o aprovara. Em seguida, Brasil, Argentina, Bolívia, Equador, Uruguai e Venezuela retiraram seus embaixadores de Assunção.

Moveu o governo brasileiro mais ideologia que coerência, o que tem sido constante nos governos lulopetistas, desnorteando uma política externa que, pautada por princípios de moderação e profissionalismo, ganhara amplo respeito internacional. Nos últimos anos, Brasília instruiu o Itamaraty a incorporar a chamada "diplomacia companheira", de apoio quase irrestrito à Venezuela chavista, ao Equador de Rafael Correa e à Bolívia de Evo Morales, também bolivarianos. No caso do Paraguai, era importante aproveitar a suspensão para abrir caminho à Venezuela, ainda mais que o presidente destituído era também um dos companheiros.

Em artigo no GLOBO, o embaixador Rubens Barbosa recordou a definição do Barão do Rio Branco, em 1903, sobre qual deveria ser o tom das relações com o país vizinho: "O Brasil é e será sempre amigo do Paraguai, quaisquer que sejam seus governantes." Refletia a afirmação, talvez, a necessidade de trabalhar intensa e continuamente para compensar os imensos danos humanos e materiais infligidos ao vizinho pela Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), na Guerra do Paraguai. A repetição do alinhamento do século XIX levou altos funcionários do governo de Assunção a recordar agora a Tríplice Aliança. Barbosa lembrou, em boa hora, que 350 mil brasileiros vivem e trabalham no Paraguai e que 20% de toda a energia consumida na área mais industrializada do Brasil dependem da binacional Itaipu. Como não tratar bem um vizinho assim?

Erro crasso da diplomacia brasileira. Cabe agora à presidente Dilma Rousseff, que vai à posse de Cartes, convencê-lo a voltar ao Mercosul. Tarefa ingrata, pois Assunção não engoliu a entrada da Venezuela à sua revelia, muito menos o fato de Caracas ocupar a presidência rotativa do bloco que, não fosse pela suspensão, caberia ao Paraguai. Brasília precisa preparar um pacote de bondades e trabalhar duro para convencer os paraguaios de que a frase do Barão do Rio Branco continua válida. Na política externa, é necessário também recolocar o interesse do país acima de ideologias.
 

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