Contraponto  
Edição 1989 de 18 a 24 de agosto de 2013
Irapuan Costa Junior 
 
Ernesto Geisel: o presidente, desde o início de seu governo, queria devolver os militares aos quartéis

Um documento verdadeiramente interessante foi comentado pelo “Estadão” no domingo, 11. É o registro, feito pelo gabinete militar da Presidência da República (então chefiado pelo general Hugo de Abreu) de uma exposição do presidente Ernesto Geisel em reunião secreta do Estado Maior das Forças Armadas. Observem a data: 10 de junho de 1974. Geisel não tinha, ainda, três meses de governo. Comunica a seus colegas de farda o que pretende fazer quanto a dois desafios que vê diante de si, um externo e outro interno. Dá uma demonstração de desassombro e visão, características que viriam a marcar sua passagem pela chefia da nação.

Da fala de Geisel, duas questões se destacam: a posição do Brasil quanto à questão nuclear e a continuidade do regime militar. Geisel afirmou, na reunião, que o Brasil não podia abrir mão do uso da energia nuclear, como nação soberana. Que a Índia havia detonado sua bomba, o que causara perplexidade mundial, mas que motivara respeito. Que tinha informações sobre os avanços da Argentina no enriquecimento de Urânio e na descoberta de jazidas importantes desse mineral, maiores que as nossas. Que um desequilíbrio de forças na América do Sul, com peso maior para uma Argentina nuclearmente armada, poderia ter consequências bastante graves. Que estava convencido de marchar com as pesquisas no campo do átomo e preparar o país para ter sua bomba, se necessário, embora marcando a posição pacifista que tínhamos.

Geisel mencionou a recusa do presidente Castello Branco em assinar o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, documento que portava uma ingerência externa em assuntos brasileiros e até certo desprezo de nossa soberania. Falou a seguir, e posso quase vê-lo com sua serena autoridade dizendo aos oficiais generais das três armas algo que os deixaria pasmos e em que muito pouco acreditariam naquele ano de 1974: que o regime militar já por muito se alongava, que os atos de exceção eram algo sem cabimento e tinham que ter fim. Era preciso voltar à normalidade de um regime democrático e civil, e voltar aos quartéis. Que aquilo teria que ser feito em um ou no máximo em dois mandatos presidenciais.

Mas não deixou de afirmar que manteria autoridade para evitar a desordem. Uma transição de um regime autoritário, ainda que não ditatorial, que vivíamos naquele ano de 1974, para uma democracia plena, comportava riscos. Imagine se caíssemos numa ditadura de fato, do tipo cubano. Era um duplo aviso, para os terroristas que ainda pululavam por aqui, com dinheiro cubano nos bolsos e chumbo cubano nas patronas. E para os militares radicais, que não pensavam em deixar o poder.

Quem viveu os anos seguintes comprovou: o velho e preparado general, o cidadão de cultura e visão, não tinha falado gabolices ou mentiras. Haveria de cumprir as promessas, custasse o sacrifício que fosse, sem buscar vantagens ou glórias pessoais. Nem mesmo buscaria aplausos.

Uma trinca de anos depois daquele discurso, o presidente esteve em Goiás, visitando a usina de Cachoeira Dourada. Falamos sobre a questão nuclear (o Brasil havia assinado acordo de cooperação com a Alemanha um ano e pouco antes) e de como era difícil avançar nas pesquisas, enfrentando o boicote das chamadas potências nucleares, países que tinham a bomba atômica.

Geisel foi profético nessa ocasião. Falando da América do Sul, manifestou preocupação com a posição um tanto belicosa da Argentina, mesmo sem a bomba. Imagine com ela. Mencionou a divergência com o Brasil, pela questão de Itaipu e com o Chile, pelo canal de Beagle. E completou — por isso digo que foi profético — falando da briga com a Inglaterra, por causa “daquelas ilhazinhas”, para usar suas palavras. Que eram as Malvinas, pivô de uma guerra cinco anos depois.  


 

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