O reitor da Universidade de Brasília (UnB), Timothy Mulholland, é homem de hábitos finos. Gosta de fumar charutos importados e colecionar carros antigos, entre eles um Porsche. Para combinar com sua sofisticação, recebeu no apartamento onde morava, até a semana passada, um pacote invejável de utensílios de primeira linha. Um home theater de R$ 36 mil, toldos de R$ 10 mil, fogão de R$ 7.100, lixeira de R$ 1.000, saca-rolhas de R$ 859, liquidificador de R$ 499 e abridor de latas de R$ 199. Ao todo foram R$ 389 mil em mercadorias destinadas ao regalo do reitor e da família. Sabe quem bancou essa festança? Nós, contribuintes.

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O dinheiro para tudo isso saiu da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), instituição criada pela UnB para realizar pesquisas de ponta. Desde 2002, a Finatec recebeu R$ 75 milhões do governo federal. Desse valor, R$ 23 milhões da UnB. “A fundação tem de empregar o dinheiro público em projetos científicos. Essa história de comprar eletrodomésticos e móveis é piada de mau gosto”, afirma o procurador Ricardo Souza, que denunciou os gastos.

Depois da denúncia, Mulholland deixou o apartamento na calada da noite, na tentativa de fugir dos flashes. Mas não parece ter se constrangido com os presentes. “Havia uma linha estética. Não se mobilia uma casa de qualquer maneira. Tem linhas de estética para poder ter um conjunto harmonioso. Não há nenhum problema. Nem legal, nem ético”, diz Mulholland. De acordo com a UnB, a compra de todos os itens é regular porque nem todo dinheiro da Finatec deve ser revertido em pesquisas, os bens são propriedade da UnB e o apartamento apenas servia como local para a representação institucional.

O reitor realizava jantares no imóvel, localizado no 6o andar de um luxuoso prédio de Brasília. Segundo servidores da UnB que visitaram o local e pediram para não ser identificados, o reitor fazia questão de exibir o local aos convidados. “Chamam a atenção as portas grandes de madeira, a churrasqueira, a sauna e uma banheira de ofurô”, afirma um funcionário. O luxo do apartamento contrasta com alojamentos de estudantes no campus da UnB, com vazamentos e falta de iluminação.
 
UM LUXO SÓ

 
O reitor Mulholland jogava seu lixo em um cesto de R$ 1.000
 
Mulholland nasceu nos Estados Unidos, no Estado da Califórnia. Chegou com 2 anos ao Brasil e cresceu em Floriano, no interior do Piauí. Está na UnB desde a metade dos anos 70. É considerado um ás da psicologia cognitiva, ramo da ciência que tenta descobrir as razões por trás do comportamento humano. Apesar da coleção de carros, no dia-a-dia anda em um Honda Civic, comprado em 2006 por R$ 72 mil, também pela Finatec, com motorista. “Ele queria um carro automático. Fez cara feia quando soube que chegou um de câmbio manual”, diz um servidor.
 
O Ministério Público Federal quer que a Finatec devolva R$ 24 milhões aos cofres da União. “Esse caso (do reitor) é apenas a ponta de um imenso iceberg”, afirma o procurador Ricardo Souza. De acordo com as investigações, um diretor gastou mais de 300 euros em um free shop na Holanda. Segundo a assessoria da Finatec, ele comprou uma câmera fotográfica para ser usada em um projeto da entidade. Outro diretor contratou a própria construtora para erguer a sede da fundação.
 
Tudo de primeira
 
Fundação da UnB gasta R$ 389 mil para montar apartamento do reitor

 
Cadeiras, poltronas, mesas de centro, cabeceira de cama e banco: R$ 69.566,23
Mais poltronas, mesa de jantar, mesa de chá, sofás e um pufe: R$ 49.878,87
Home theater: R$ 36.603,00
Quadros: R$ 21.600,00
Palha para revestimento, xales de seda, tapetes e almofadas: R$ 20.562,00
Objetos de decoração: R$ 18.178,80
Luminárias: R$ 8.845,28
Três lixeiras: R$ 2.738,00
Saca-rolhas: R$ 859,00
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