Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 30/08/2013 
 Brasília-DF-

A presidente Dilma Rousseff e o presidente da Bolívia, Evo Morales, devem se reunir hoje em Paramaribo, capital do Suriname, onde ocorre a reunião da União das Nações Sul-Americanas (Unasul). Ontem, Morales disse que o governo brasileiro deveria mandar de volta para a Bolívia o senador Roger Pinto Molina, para que responda às acusações de corrupção que pesam contra ele na justiça boliviana. Pôs uma saia justa na presidente Dilma Rousseff, que recebeu um ultimato. Dilma ficou irritadíssima e, ontem à noite, até cogitava cancelar a viagem.
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Segundo Morales, o Brasil precisa explicar a fuga do senador Roger Pinto Molina. Ele deixou a embaixada brasileira, onde passou cerca de um ano e meio confinado numa sala sem janela, com o apoio do encarregado de negócios do Brasil na Bolívia, Eduardo Saboia, que assumiu a responsabilidade pela operação. Alega perseguição política e risco de vida porque denunciou o envolvimento do governo boliviano com o narcotráfico. Evo Morales se recusou a dar o salvo-conduto a Morales e, agora, pediu à Interpol que o prenda, pois ao sair do país tornou-se um foragido da justiça boliviana. Dilma demitiu o chanceler Antônio Patriota e removeu o diplomata, mas isso não basta para a Bolívia.

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A concessão do asilo a Roger Pinto seguiu a tradição diplomática do Itamaraty e latino-americana. Contraria, porém, a atual doutrina da política externa brasileira para o continente. De um lado, temos os governos de esquerda — da Argentina, do Uruguai, da Venezuela, do Equador e da Bolívia; de outro, os governos de centro direita — do Chile, do Peru e da Colômbia, que se unem ao México e formam a chamada Aliança do Pacífico, alinhados aos Estados Unidos. O Paraguai, que havia sido afastado do Mercosul, está com um pé na Aliança do Pacífico. O Brasil optou por disputar com a Venezuela a liderança do bloco à esquerda e mantém distância regulamentar dos demais países. A concessão do asilo a Roger Pinto enfraquece a posição do Brasil na sua esfera da influência.

Liberais e nacionalistas
No Itamaraty , ao contrário das Forças Armadas, houve períodos de certo consenso sobre a política externa entre uma ala americanista, de caráter liberal, e outra nacionalista, de esquerda. Elas se uniram, por exemplo, em dois momentos decisivos para o país: quando o Brasil entrou na II Guerra Mundial e no governo de Juscelino Kubitschek. A corrente mais reacionária só foi hegemônica no Estado Novo, em 1935; e logo após o golpe militar de 1964. Mesmo no regime militar, com Saraiva Guerreiro, houve certo consenso. Com a democratização do país, o comando do Itamaraty continuou sendo disputado entre liberais e nacionalistas, mas o consenso se desfez. Os primeiros mandaram durante o governo de Fernando Henrique Cardoso: os segundos, dão as cartas desde a eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O caso Roger Pinto expõe novamente essa contradição.

Dilma e Lula
A presidente Dilma Rousseff herdou do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva essa doutrina para América Latina, com a qual concorda. A diferença é que Lula visitava com muita frequência a Argentina, a Bolívia e a Venezuela, ao passo que a presidente Dilma Rousseff, por diversas razões, distanciou-se dos demais líderes de esquerda do continente, com exceção da presidente argentina Cristina Kirchner. Lula teve muita paciência com Evo Morales; Dilma, não tem nenhuma.

Apagão// Doutor em energia elétrica, o secretário da Indústria e Comércio da Bahia, James Correia, culpou a Chesf pelo apagão em nove estados do Nordeste. "É culpa da incompetência da Chesf." Ele quer a cabeça do presidente da Chesf, João Bosco de Almeida, que é apadrinhado do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB).

Fora de jogo
O deputado federal Romário (foto), do Rio de Janeiro, passou por uma cirurgia ontem de hérnia de disco lombar no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília. Foram seis horas de operação, mas o craque passa bem. O parlamentar já havia se submetido a outros procedimentos cirúrgicos, considerados paliativos, para amenizar a dor. Na semana passada, começou a sentir dores fortes e contínuas, que impediam sua locomoção.

Digitais
Não votaram na sessão que deveria cassar Donadon
103 deputados

Efeito Orloff
A Câmara dos Deputados livrou de cassação o deputado federal Natan Donadon, que está condenado a 13 anos, 4 meses e 10 dias por peculato e formação de quadrilha, em votação surpreendente. Foi um recado para o Supremo Tribunal Federal dos parlamentares contrários à cassação dos quatro parlamentares condenados na Ação Penal 470. Preso no Complexo Penitenciário da Papuda, Donadon sensibilizou muitos colegas: eu sou vocês amanhã. Dos 513 deputados, somente 233 votaram por sua cassação, que exigia 257 votos a favor. Houve 131 votos contra e 41 abstenções.

Nós, quem?/ A bancada do PT na Câmara repudiou "qualquer tipo de insinuação" de que o partido teria feito um acordo no processo de votação que manteve o mandato do deputado Natan Donadon. Assinada pelo líder José Guimarães, a legenda esclarece que 78 parlamentares marcaram presença; 10 não estavam em Brasília por motivo de doença ou missão oficial; 67 votaram e 11 não o fizeram.

Perto do céu/ Cerca de 200 médicos cubanos que estão em treinamento em Brasília foram transferidos de alojamentos militares para abrigos civis, mas confortáveis. Um deles é o Mosteiro de São Bento.

Cassação/ O presidente nacional do PPS, deputado federal Roberto Freire (SP), e o líder do PSDB, Carlos Sampaio (foto), anunciaram que entrarão com mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) para anular todo o processo de cassação do deputado Natan Donadon (RO) porque a Mesa Diretora da Câmara enviou-o à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) em vez de declarar, de ofício, a perda de mandato.

 

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