Sergio Leo 
Valor Econômico - 02/09/2013 
"O Itamaraty faz muita diplomacia e pouca política externa". A frase, ouvida com algumas variações por mais de um interlocutor da presidente Dilma Rousseff, ajuda a entender o processo que levou à demissão do ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, na semana passada.
A presidente se exaspera com o que considera excesso de formalidade e filigranas dos diplomatas e quer mais resultados palpáveis. Substituto de Patriota, o respeitado Luiz Alberto Figueiredo terá de lidar com a decisão de Dilma de incluir o Itamaraty na lista dos ministérios gerenciados bem de perto por ela.

  Não está muito claro o que a presidente entende por "política externa". Pelos temas que atraem seu interesse, pelas viagens que prefere fazer e nas conversas com auxiliares, é visível que sua diplomacia presidencial, onde existe, privilegia os interesses econômicos. Temas políticos que tanto atraíam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como o conflito no Oriente Médio, a discussão sobre o projeto sul-americano ou a campanha para o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) caem muito marginalmente sobre a mesa de despachos da mandatária.

É por ações como a cooperação com países do continente africano e a tentativa de influir nas discussões financeiras mundiais por meio do grupo Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) que a presidente pauta sua visão de projeção internacional do país. Dilma não tem paciência para as longas digressões de chefes de Estado do Mercosul e da União das Nações da América do Sul (Unasul), como a realizada neste fim de semana. Ela costuma recusar compromissos nos quais não vê possibilidade de resultado prático, como fez ao negar audiência a Cristina Kirchner, durante a visita do Papa ao Brasil, e ao deixar as autoridades indianas com fogos de artifício na mão, em junho deste ano, quando avisou, em cima da hora, que não iria à reunião, em Nova Déli, planejada para comemorar os 10 anos do Ibas (Índia, Brasil e África do Sul).

Por saber que as grandes potências costumam adaptar as normas internacionais a suas conveniências (quando não as desrespeitam pura e simplesmente, como na ação francesa no Mali e, agora, possivelmente, no ataque à Síria do ditador Bashar al-Assad), Dilma não gosta que diplomatas lhe apontem obstáculos do direito internacional a suas decisões. Assim, ao ver que o Itamaraty não endossaria a entrada da Venezuela no Mercosul sem a aprovação paraguaia, encomendou ao advogado-geral da União o parecer contorcionista que sustentaria a decisão de aproveitar a "janela de oportunidade", com a suspensão do Paraguai do bloco, para incorporar os venezuelanos no ano passado.

O desapreço de Dilma pela "diplomacia" é um desafio a Figueiredo, que, como contou a própria Dilma na cerimônia de posse, conquistou o respeito da presidente na reunião das Nações Unidas para meio ambiente, em 2009, a COP-15. A atenção à então chefe da Casa Civil e a segurança mostradas nas negociações por Figueiredo encantaram Dilma, que o elogiou na conferência seguinte, a COP-17, quando um impasse em torno do texto final do encontro foi solucionado com a intervenção do diplomata. Na Rio+20, o desembaraço de Figueiredo o fez conquistar definitivamente o lugar de substituto possível para Patriota nos planos de Dilma, que, no entanto, voltada a problemas de política interna, não pensava em mudar o comando do Ministério de Relações Exteriores tão cedo.

É grande o número de assessores da presidente que foram contrários ao asilo concedido ao senador boliviano Roger Pinto na embaixada em La Paz. Fato consumado, porém, frustradas as repetidas gestões da própria Dilma com o presidente Evo Morales para a liberação do senador, apenas duas atitudes foram tomadas: a presidente decidiu que não viajaria à Bolívia enquanto persistisse a situação e, por queixas do governo boliviano, o Itamaraty determinou cumprimento draconiano das regras que se aplicam nesses casos, de proibição de visitas e manifestações do político asilado nas dependências da embaixada brasileira.

O caso do senador não é incidente isolado e problemas semelhantes tendem a se repetir enquanto faltar à política externa do atual governo uma estratégia mais clara e eficiente para lidar com idiossincrasias dos vizinhos. Na busca por legitimidade, chefes de Estado como Evo Morales, à frente de governos fracos, recorrem com frequência a demonstrações de força voltadas às correntes políticas internas. Disputas nacionalistas, por exemplo, são instrumento frequente, e ressentimentos com empresas e proprietários de terra brasileiros, influentes na vizinhança, alimentam esse tipo de atitude.

Abandonar na embaixada brasileira, sem perspectivas, um político boliviano polêmico sabotou o trabalho dos diplomatas e os obrigou a viver numa espécie de Big Brother consular. Esse quadro só acabou com a insólita aventura do encarregado de negócios da embaixada, Eduardo Saboia, destroçando manuais e a hierarquia ao trazer, sem salvo conduto, por sua conta e risco, o senador ao Brasil.

Interlocutores de Dilma afirmam que ela nota a necessidade de novas ideias e novas fórmulas para a política externa e para a projeção de poder do Brasil, até agora sujeito, por exemplo, a ações reativas e casuísticas, ao enfrentar problemas de relacionamento com os vizinhos. A presidente está disposta a receber de Figueiredo essas ideias. Uma primeira grande oportunidade deve ser a viagem da presidente, em outubro, aos Estados Unidos. Antes, o novo chanceler passará por outro teste: Dilma também quer punição "exemplar" ao encarregado de negócios da embaixada do Brasil em La Paz que, exasperado, enfrentou as autoridades em Brasília e deu, à sua maneira, um ponto final - ou quase - a uma novela nada lisonjeira para a diplomacia brasileira.

 

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