Por Nivaldo Cordeiro
A economia nacional vai bem? Sim, podemos dizer, embora as taxas de crescimento do PIB estejam aquém das médias das economias emergentes e aquém do auge do crescimento brasileiro nos anos setenta. Podemos dizer que a economia vai bem por causa do governo Lula? Seria Lula o autor da bonança? Não, definitivamente não. A economia vai bem a despeito de Lula, cujo governo aproveitou-se de dois pontos de apoio para atrapalhar pouco o movimento favorável: o conjunto de reformas posto em prática pelo governo FHC, debelando a inflação e devolvendo credibilidade ao País, de um lado e, do outro, o momento altamente favorável na economia internacional, cuja prosperidade elevou o quantum exportado e os termos de trocas. Os preços das commodities jamais estiveram tão bons.

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Lula terá o mérito de não atrapalhar muito, podemos dizer. Pôs Henrique Meirelles no Banco Central, que funciona com relativa autonomia e acabou com os sobressaltos. Esse fato só nos diz que a esquerda finalmente descobriu algumas das leis elementares da economia no que se refere à moeda, nada mais. Banco Central algum será autor de desenvolvimento, pois a boa administração da moeda não se traduz automaticamente em crescimento, sendo apenas um pré-requisito. O motor foi de fato a economia mundial. Mas também o foi o trabalho duro e competente dos brasileiros, fato que explica a essência do processo. Nenhum país se transformar no maior exportador mundial de carnes, por exemplo, se seus pecuaristas não forem também os melhores do mundo, em qualidade, preço e produtividade. Vimos isso acontecer recentemente.

Da mesma forma, setores como os bancos nunca lucraram tanto. E o que explica esse desempenho, tirante que a taxa de juros contem uma cunha altista injustificável que funciona como dumping contra as empresas nacionais? A rentabilidade cresceu porque os nossos banqueiros agregaram valor à economia, criaram o Sistema Brasileiro de Pagamentos, uma maravilha tecnológica, têm prestado excelentes serviços de cobrança e de conta corrente, incorporaram definitivamente a Internet e os caixas eletrônicos à vida das pessoas. Contribuíram para o aumento geral da produtividade do Brasil, deve ser dito. Mesmo com a redução dos juros nominais nos últimos tempos os lucros cresceram por mérito dos empresários banqueiros, que, se não puseram os bancos como financiadores do sistema produtivo, puseram-nos como instrumento de serviços inestimáveis e inovadores, a preços relativamente baixos. Nem os lucros dos bancos podem ser creditados a Lula, pois são mérito dos próprios banqueiros.

É uma grande mentira dizer que Lula e o PT são autores do que quer que seja. Seus méritos são “negativos”, ou seja, deixaram de fazer as besteiras gigantes que estávamos a esperar deles, embora fizessem outras besteiras, mas não aquelas que pudessem comprometer os pilares estruturais do sistema econômico. Uma besteira que passa por mérito é a distribuição das tais bolsas-esmola, que supostamente alimentariam os pobres. Compram votos, na verdade, fecham os currais eleitorais dos grotões, onde Lula é imbatível. Mas em São Paulo, por exemplo, onde o valor das bolsas-esmola é irrelevante, o samba toca diferente, o ritmo é do Adoniran Barbosa. Aqui o PT e sua laia não têm chance nem de ganhar a prefeitura paulistana e muito menos o governo do Estado. A fraqueza estrutural do PT em não ter o poder em São Paulo vai continuar, pela graça de Deus.

Por isso que o artigo do brilhante José Nêumanne (“Enchendo o bolso do rico e a barriga do pobre”), publicado na edição de ontem do Estadão, me deixou tão perplexo. À primeira leitura tendi a concordar, mas vi depois que o articulista meteu os pés pelas mãos e deixou-se enganar pela superficialidade dos fatos. Ele escreveu:

“Egresso do Planeta Fome,como disse Elza Soares ao se apresentar como caloura no programa de Ary Barroso, Sua Excelência sabe muito bem que a contrapartida para o sono tranqüilo dos banqueiros deve ser a saciedade dos miseráveis: os banqueiros podem ressonar à vontade, desde que a barriga dos pobres não ronque. Imaginar que a elite financeira vai pôr em risco seus lucros espetaculares por ter uma ministra sem expressão gasto dinheiro público em free shop e que as favelas vão rufar seus tambores de guerra porque o ecônomo que abastece a despensa da primeira família usa de forma perdulária recursos retirados da economia em forma de impostos equivale a esperar o desembarque de Papai Noel no verão tórrido em pleno semi-árido”.

Onde está a falácia? Achar que o governo tem poder de enriquecer os banqueiros e de alimentar os pobres. Não tem, ou melhor, tem de forma limitada no caso dos banqueiros. O poder de gerar riqueza está no mercado. O Estado só pode mesmo transferir recursos e atrapalhar a produção. Certo que o PT não tentou expropriar os bancos (algo que sempre prometeu fazer), mas os enormes lucros que estão sendo registrados nos balanços têm origem nos seus méritos empresariais e não meramente na prodigalidade governamental, embora a dívida pública continue gigante e os juros artificialmente altos. Da mesma forma, a fome das gentes pobres não é erradicada pelas bolsas-esmola, embora para os lúmpens dos grotões elas possam ter algum valor e parecer assim. Quem alimenta o povo é o trabalho do povo, trabalho que paga impostos e financia a vagabudagem inclusive de uma horda miserável que virou cliente crônica do Tesouro. E da horda petista toda ela empregada no governo.

Um artigo assim tornou-se uma formidável e involuntária propaganda do governo e, enquanto grande escritor que é, o engano do jornalista transformou a mentira grotesca na verdade mais formidável. Vai ser posto num quadro na Presidência da República e na sede nacional do PT. Em face do engano é que ele pôde concluir: “Difícil é crer que, tendo criado a receita do povo feliz com o milionário mais rico e o miserável saciado, Lula não se deixe tentar pelo diabinho do terceiro mandato”. Bem informado como é Nêumanne sabe que Lula e o PT estão fazendo de tudo para ter mais um mandato. Isso equivale a rasgar a Constituição e ao início da ditadura rumo à venezuelização do Brasil. O fórum para decisão é o Senado Federal e talvez apenas dois míseros votos sejam ainda a diferença para que esse pesadelo não tenha se tornado realidade.

Por isso tenho acompanhado com tanta atenção os movimentos de FHC e de seus correligionários. Sobre os ombros desses homens pesa toda a responsabilidade de dizer Não!. O futuro inteiro na Nação está nesses poucos votos. Dizem que todo homem tem seu preço. Espero que o dessa gente seja bem alto, pois a contrapartida será mergulhar o País na incerteza de uma aventura errante, de cunho bolivariano, à moda de Chávez. Talvez até mesmo uma guerra civil. Oremos e vigiemos! 

Nivaldo Cordeiro

www.nivaldocordeiro.net
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