O Globo - 02/10/2013 
Acusado de ter fechado Opala do ex-presidente deu depoimento a comissão

São Paulo- Acusado de ter dado uma fechada no Opala dourado do ex-presidente Juscelino Ku-bitschek na Via Dutra, causando sua morte em agosto de 1976, o motorista de ônibus Josias Nunes de Oliveira afirmou ontem à Comissão da Verdade da Câmara de Vereadores de São Paulo que, cinco dias após a morte de JK, dois homens lhe ofereceram uma mala cheia de dinheiro para que assumisse a responsabilidade pelo acidente. A integrantes da comissão, disse ter recusado o dinheiro e temido por sua vida.

— Eram dois homens, em duas motos CB-400, cabeludos, que disseram ser repórteres. Veram à porta da minha casa com uma mala cheia de dinheiro. Disse-ram que, se eu falasse que era culpado (pelo acidente), aquele dinheiro era todo meu — disse, não sabendo precisar o valor supostamente oferecido: — Mas estava cheio daquelas notas de 500 cruzeiros que o Juscelino fez.

Motorista da Viação Cometa, acostumado a fazer a rota entre as cidades do Rio e de São Paulo pela Via Dutra, Josias contou que ultrapassou o carro do ex-presidente, dirigido pelo motorista Geraldo Ribeiro, e que, minutos depois, o Opala do ex-presidente o ultrapassou, agora em alta velocidade, não fez a necessária curva à esquerda, atravessou o canteiro central e colidiu com um caminhão na pista contrária.

— Nem ele bateu em nós, nem batemos nele. Parei o ônibus para socorrer. Não sabia quem estava no Opala. Mas não teve socorro. O motorista já estava morto, e vi o presidente piscar duas vezes antes de morrer. Fui acusado, humilhado. Andava nas ruas, e 5 as pessoas diziam: "Ele matou o  Juscelino" —- contou Josias, em lágrimas, aos parlamentares.

JK morreu aos 73 anos. Dois anos antes, havia recuperado os direitos políticos cassados logo depois do golpe militar de 1964. O motorista de ônibus, que hoje tem 69 anos e vive num asilo no interior de São Paulo, disse que respondeu a dois processos pela morte. Acabou inocentado ao provar que o arranhão de tinta dourada na lataria do ônibus era de tinta de anilhas de proteção na rodoviária de São Paulo.
 

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