Irapuan Costa Junior
Wilson Dias/Agência Brasil 
Dilma Rousseff: a presidente brasileira não deixa a pauta da espionagem americana sair do ar devido a interesses eleitorais?
Cada vez menos estadista, cada vez mais política provinciana. Assim se comporta a presidente Dilma Rousseff quando se move na questão da espionagem a que teríamos sido submetidos pela inteligência americana — e também pela canadense. Seria ingenuidade negar a existência da espionagem, mormente por parte dos serviços americanos. Eles ainda vivem o trauma dos ataques terroristas que sofreram em várias partes do mundo, principalmente em sua cidade símbolo, Nova York. Participam de conflitos armados. São a maior potência econômica do planeta, e têm que dar cobertura à sua vasta cadeia extrativa, agrícola, industrial e comercial, para o que têm que saber, tanto quanto possível, o que se passa nos teatros econômicos do mundo todo. Espionaram, espionam e vão continuar espionando.

 Deveria o governo brasileiro fazer o que fazem seus congêneres mais capazes e eficientes: desenvolver nossos serviços de inteligência, não só para impedir o livre trânsito dos espiões estrangeiros em nosso território, como para dificultar sua tarefa, atuando na desinformação. Deveria buscar também informações de nosso interesse onde estiverem disponíveis, inclusive nos próprios EUA. Dar chiliques, exigir explicações que não virão, cancelar visita de Estado, mais de nosso interesse do que de interesse dos americanos, fazer discursos mal-educados ou emitir notas diplomáticas ríspidas e inúteis não leva a nada. A menos que se trate de mera encenação eleitoreira para uso nos palanques do ano que vem.
 
Dilma Rousseff deveria se mirar no exemplo de outra nação e de outra chefe de Estado que foi alvo da mesma indiscrição: Alemanha e Ângela Merkel. A competente chanceler alemã já deu, há muito tempo, o acontecido por encerrado. Mas aqui não. Mesmo depois de murcho o episódio, continua a arrelia com os americanos. Tornou-se costume entre nós admirar e imitar não EUA e Alemanha, mas sim Venezuela e Bolívia, esses portentos de democracia e desenvolvimento.
 
Nossa Agência Brasileira de Inteligência (Abin) é uma das instituições mais detestadas pelos governantes de esquerda, cuja miopia faz vê-la como sendo ainda o SNI do regime militar que vigiava seus passos quando engajados na luta armada e no terrorismo. É o governo incapaz de vê-la como o que é na realidade: uma agência utilíssima — na verdade indispensável — para várias atividades do mesmo governo. Sufocá-la, como se fez e se faz, transformá-la em mera repartição coletora de notícias de jornais, sem recursos e sem um mínimo acesso a quem mais dela precisa — os altos escalões da República — não é só miopia. É grossa ignorância.
 
 Pudesse eu, sugeriria à presidente Dilma a leitura de um livro — um pequeno livro — do irrequieto historiador português (que viveu no Brasil) Jaime Cortesão. Chama-se “A Política de Sigilo nos Descobrimentos” e foi editado em 1960, em Portugal, no quinto centenário da morte do Infante D. Henrique, entre outras obras comemorativas que compõem a “Coleção Henriquina”.
 
Cortesão, em um texto muito bem pesquisado documentalmente, além de redigido com clareza, mostra alguns fatos importantes, dos quais se deduz que: A) A espionagem e a contraespionagem são armas fundamentais dos governos desde sempre. Sua importância para Portugal, nos séculos XV e XVI, dificilmente poderá ser totalmente avaliada, mesmo nos dias de hoje. Mas episódios nos quais a inteligência portuguesa atuou com competência e inegáveis resultados práticos são mostrados no livro. B) Mesmo nações pequenas, como era Portugal perante as demais nações europeias no século XV, podem dispor de um eficiente serviço de inteligência, superando o de nações muito maiores e mais ricas. Esta verdade está presente até hoje. O Mossad israelense supera em eficácia os serviços secretos de várias das maiores nações do mundo. Se o governo brasileiro se convencesse desses dois fatos, pouparia desgastes inúteis e passaria a dar maior atenção a uma política de inteligência condizente com o que temos e o que somos.
 
Vou comentar algumas passagens do livro de Jaime Cortesão para conhecimento dos leitores. Há muito mais no texto completo, para quem tenha interesse. Não é desconhecida a situação geográfica — e por consequência econômica — de Portugal: estreita faixa de terra emparedada por nações mais populosas e ricas — Espanha principalmente — só poderia ver a expansão pelo lado do mar. Estimam-se as populações de Portugal e da Espanha dos Reis Católicos, no século XV, em 1,1 milhão e 7 milhões, respectivamente. A Alemanha tinha 6 milhões de habitantes, e a França, 12 milhões. Portugal era, pois, um país pequeno e pouco expressivo populacionalmente, em presença do resto da Europa.
 
Mas um dos homens mais iluminados que a humanidade produziu transformaria, usando a inteligência e a audácia, esse pequeno país em um império: o Infante D. Henrique, dito O Navegador, não porque navegasse, mas porque fazia com que seus patrícios navegassem, pelo mar desconhecido e cheio de perigos e lendas, alcançando — e descobrindo — o mundo todo. O Infante, e depois dele seu sobrinho-neto D. João II, chamado O Príncipe Perfeito (que negociaria o Tratado de Torde¬silhas), são os grandes artífices das navegações, dos Descobrimentos, e da grande expansão portuguesa, de que é a nação brasileira consequência.
 
Mostra Jaime Cortesão que para levar avante os Desco¬brimentos, a despeito dos esforços das nações mais ricas, que não tiveram o mesmo sucesso, foi fundamental a política de sigilo portuguesa, obra também do Infante e do Príncipe Perfeito. Ou, em outras palavras, Portugal soube fazer uso da informação protegida e da contrainformação bem elaborada. Da espionagem pura e simples.
 
As caravelas, desenvolvidas para as navegações de longo curso, resistentes às tempestades, com os seus desenhos de casco, forma e disposição de seu velame, eram produto do estudo e da experiência da Escola de Sagres, para onde o Infante havia recrutado os melhores artesãos da Europa, inclusive de Gênova e Veneza. Seus planos eram guardados secretamente, e as caravelas portuguesas, por lei – e lei rigorosa – não podiam ser vendidas. Capitães, navegadores, cartógrafos e cosmógrafos que servissem às navegações portuguesas eram proibidos de emigrar. As cartas de marear eram segredo protegido, bem como regime de ventos, roteiros e localizações de acidentes geográficos registrados pelos navegadores portugueses.
 
Conhecem-se poucas histórias dos espiões portugueses, protegidos, também eles, pela política do sigilo. Mas as conhecidas deixam no chinelo as do 007 de Yan Fleming. O mais competente teria sido Pero da Covilhã. Ele foi na mocidade escudeiro de D. Afonso V, e era inteligente e poliglota (falava inclusive o árabe). Corajoso, aventureiro, disfarçava a postura de agente secreto de D. João II, a quem se reportava diretamente, passando-se por mercador. Pesquisou, viajando, uma rota por terra até Sofala e Calicute, na Índia, em meio aos maiores perigos. Suas informações, somadas às de outros espiões (principalmente as de Bartolomeu Dias, que era também informante do Príncipe Perfeito), permitiu a D. João II deduzir com segurança o caminho para as Índias, e propor, astuciosamente, a uma Espanha invejosa das navegações portuguesas, um Tratado de Tor¬desilhas altamente vantajoso para Portugal, que ficava dono da rota das especiarias. Que os Reis Ca¬tólicos assinaram de bom grado em 1994. Afinal, dividia o mundo em dois, e um hemisfério era espanhol. Já em 1497, Vasco da Gama partia para as Índias, navegando em águas agora incontestavelmente portuguesas. Só então, furiosos mas contidos, os soberanos espanhóis viram que tinham sido logrados. D. João II, o Príncipe Perfeito, não veria o coroamento de seu trabalho. Falecera em 1495. Mais de seis séculos depois, uma “soberana” brasileira poderia aprender algo com ele. Mas não creio que aconteça. 

 

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