Miriam Leitão
A Colômbia não podia ter entrado com tropas no Equador. É violação do território. Mas o Equador e a Venezuela não podem mais ser áreas de abrigo dos bandidos das Farc. A posição mais correta no caso é a que reconhece os erros dos dois lados. Num momento em que o Brasil poderia se preparar para liderar a integração regional, o papel brasileiro passa a ser o do apaziguador de ânimos. O que complica o cenário? A beligerante atuação de Hugo Chávez.

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É natural que, numa guerra interna, como é o caso da Colômbia, os que enfrentam o governo procurem refúgio em território vizinho, mas para depor armas, e não para preparar outros ataques.

A Venezuela está procurando uma guerra há tempos. Armou-se para isso: só em 2006, foram US$3,1 bilhões (o dobro de 2005) investidos por Chávez na compra, entre outros, de 24 caças russos, navios de guerra espanhóis e cem mil fuzis AK-103. Seu alvo principal sempre foi a Colômbia. A posição do presidente venezuelano de negociador com os terroristas nunca teve o elemento necessário a qualquer mediação: neutralidade.

Rosendo Fraga, do site Nueva Mayoria, ontem apontava que o detonador da participação de Chávez, num conflito que só caberia a Equador e Colômbia, é a queda da sua popularidade, que saiu dos 60% para os 38%. Não seria a primeira vez que Chávez se utiliza de um inimigo externo para tentar aumentar seu prestígio interno. De qualquer forma, a Venezuela também é dependente da Colômbia; dela importa boa parte de seus alimentos.

O que as Farc têm feito é odioso. Há muito tempo, o território dos países vizinhos tem sido usado pelos bandidos das Farc como forma de fugir dos confrontos com o Exército colombiano e de lá preparar as ações criminosas. Isso não parece incomodar nem o governo do Equador, nem o da Venezuela. Ambos deveriam esclarecer melhor isso. De qualquer modo, é natural que o presidente Rafael Correa se ofenda com a entrada de tropas colombianas em seu território. Integrantes das Farc que cometem crimes hediondos são bandidos e torturadores. Mas isso não significa que possam ser mortos de pijama em território de um outro país. Devem ser presos e julgados quando estiverem no território da Colômbia.

Hugo Chávez, nos seus delírios, autodenominou-se defensor da Bolívia e do Equador, e não esconde que apóia o terror na Colômbia. Ele considera que as Farc representam os ideais "bolivarianos". Em todo esse quadro, mais uma vez, comprova-se a postura bélica de Chávez, que, em vez de unir o continente, acaba causando mais atritos. É uma liderança conflituosa.

Para ter cacife de se meter nestes embates, ele tem se aproveitado do lucro exorbitante com a alta do petróleo. Fazendo uma conta simples, considerando as exportações venezuelanas de petróleo menos as importações vezes o preço do barril, hoje a Venezuela lucra por mês US$5 bilhões a mais que em 1999, quando Chávez assumiu. Esses recursos abundantes poderiam ser mais bem investidos no desenvolvimento do país. A Venezuela vem dilapidando a empresa de petróleo para financiar aventuras e programas populistas. O país cresce, mas com desabastecimento, desorganização econômica, sem aumento da capacidade produtiva.

Neste momento, o Brasil, que em gastos militares é o maior da América do Sul, ou seja, ainda é o mais poderoso, tem que ter extremo cuidado na sua atuação. É assunto para diplomatas profissionais e a "solidariedade" entre "grupos de esquerda" ou quaisquer outras baboseiras em que se pense na segunda chancelaria, a comandada por Marco Aurélio Garcia, devem ser desautorizadas. O Brasil deveria seguir sua tradição diplomática de não tomar partido na briga e trabalhar pela pacificação na região. Não nos interessa o conflito. É hora de o país mostrar a melhor forma de exercer a liderança: pela pacificação. Por enquanto, a chancelaria ainda não mostrou a neutralidade necessária. Na sua entrevista ontem, o ministro Celso Amorim só fez críticas a um dos lados; o colombiano.

Um informe do Sipri, um dos principais centros de pesquisa sobre conflitos, indica que a América Latina é a região menos conflituosa no que se refere à segurança internacional. Não há nenhum país da região entre os que mais gastam com armamentos, nem entre os grandes exportadores de armas ou entre os detentores de armamentos nucleares. A Venezuela tampouco é o país com maiores gastos militares, mas é o país que mais vem tentando aumentar seu poderio. Ou seja, numa terra onde os números demonstram um apreço pela paz, um ator está indo na direção contrária.

Enquanto faz bravatas de integração, Hugo Chávez já anunciava no último mês, na reunião da Alba, que se preparava para um conflito militar na região. Um sinal claro de que a integração está ainda a quilômetros de ter sua chance. O papel das Farc também precisa ser olhado com maior critério. Foi-se o tempo em que o grupo podia ser considerado uma força política. Hoje, além de atuarem como narcotraficantes, seqüestram inocentes, os tratam de forma cruel e desumana. Os relatos recentes dos sofrimentos dos seqüestrados não deixam dúvidas. A deputada Glória Polanco, que teve seu marido assassinado pelas Farc, e teve que viver seu luto sendo obrigada a continuar as caminhadas na selva por um mês; o calvário vivido pela senadora Ingrid Betancourt, que neste momento corre risco de vida depois do longo cativeiro; o relato de Clara Rojas sobre as condições do parto e o sofrimento de ter seu filho arrancado dos braços.

É hora de o continente, tão pouco afeito a guerras, parar. De o Brasil pensar na sua atuação e desempenhar a liderança pacífica que sempre exerceu ao longo da História.

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Chávez acusado de financiar Farc

Colômbia denuncia vínculos do Equador com guerrilha e leva Correa a romper relações com Bogotá

BOGOTÁ, CARACAS e QUITO

Em acusações que aumentam ainda mais a tensão entre os governos de Colômbia, Venezuela e Equador, autoridades colombianas afirmaram ontem que têm provas de que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, financiou as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) com o repasse de US$300 milhões. Bogotá disse ainda ter gravações de ligações comprometedoras entre Chávez e o líder fundador da guerrilha, Manuel Marulanda, e disparou contra o governo equatoriano, afirmando ter provas de que assessores do presidente Rafael Correa têm contato direto com líderes guerrilheiros. As afirmações, segundo o governo colombiano, são baseadas em documentos encontrados no acampamento onde estava o líder guerrilheiro Raúl Reyes, morto numa operação militar no sábado em território equatoriano e que resultou numa das piores crises diplomáticas em décadas na América do Sul. Os governos de Quito e Caracas negaram as acusações e, numa perigosa escalada política e militar, Quito rompeu ontem relações com Bogotá e cerca de 3.200 soldados equatorianos foram transferidos para a fronteira com a Colômbia.

- Os documentos encontrados no acampamento mostram claramente que Hugo Chávez financia as Farc. E os telefonemas só reforçam isso. Em uma das ligações (para Marulanda) Chávez diz o seguinte: "nós sempre estaremos atentos em caso de agressão gringa para defender com nossos modestos conhecimentos a revolução bolivariana da Venezuela" - afirmou o general Oscar Naranjo, diretor da polícia colombiana.

Naranjo também afirma que entre os documentos estão algumas correspondências e, numa delas, Reyes destaca o agradecimento de Chávez pela ajuda recebida das Farc (US$50 mil) quando estava preso, em 1992, após tentar um golpe de Estado.

Denúncias na ONU e na OEA

Apesar de ter pedido desculpas formais no domingo ao Equador, o governo colombiano tentou ontem justificar a ação militar de sábado, afirmando que não feriu a soberania equatoriana e que apenas "usou um dispositivo legal da ONU para combater o terrorismo". Bogotá disse que vai acusar Venezuela e Equador na ONU e na Organização dos Estados Americanos (OEA) de envolvimento com as Farc. A OEA anunciou para hoje uma reunião de emergência para discutir a crise.

Ao menos 17 guerrilheiros das Farc e um soldado colombiano morreram no ataque do Exército da Colômbia em território equatoriano, numa operação apontada por analistas como semelhante a que matou Negro Acácio, outro líder das Farc, no ano passado. As acusações de Bogotá contra Equador e Venezuela geraram indignação entre os colombianos. O jornal "El Tiempo" em seu editorial ressaltou que enquanto o presidente Alvaro Uribe presidia uma cerimônia fúnebre em homenagem ao soldado colombiano morto, Chávez decretava um minuto de silêncio na Venezuela em homenagem a Raúl Reyes, que definiu como "um revolucionário conseqüente e vítima de assassinato covarde".

No domingo, Chávez chegou a dizer que a crise é grave e poderia resultar numa guerra na América do Sul. Ontem, no entanto, o encarregado de comentar as acusações colombianas contra ele foi o vice-presidente Ramón Carrizales.

- Estamos acostumados a mentiras do governo colombiano - disse, ao negar o repasse dos US$300 milhões às Farc e ao dizer que a Venezuela também está reforçando a segurança de sua fronteira com a Colômbia.

No fim da tarde, o governo venezuelano expulsou o embaixador colombiano no país. Já a oposição venezuelana conclamou a população ontem a "trabalhar pela paz". Segundo a Fedcámaras, maior entidade empresarial da Venezuela, um conflito com a Colômbia poderia "tornar dramática" a grave crise de abastecimento pela qual passa o país. Cerca de 30% dos alimentos consumidos pelos venezuelanos são produzidos na Colômbia.

No Equador, que também rejeitou as acusações de envolvimento com a guerrilha, o clima é de forte tensão depois do envio de 3.200 homens para se juntarem aos 11 mil que já fazem a segurança na fronteira com a Colômbia. Em Quito, manifestantes ficaram durante todo o dia na porta da embaixada colombiana para protestar. O presidente Rafael Correa convocou o Conselho de Segurança Nacional para discutir a crise e voltou a chamar o governo colombiano de mentiroso:

- É extremamente grave não só para o Equador, mas para a região, se quiserem impor aqui uma lógica de Oriente Médio. Isso é rejeitado por todos os países da região. Trata-se, portanto, de uma crise multilateral.

Apesar das mobilizações de Equador e Venezuela, a Colômbia anunciou que não enviará reforço de tropas para as fronteiras.

Mais tarde, Correa disse que o ataque da Colômbia e a morte de Reyes frustraram um acordo para libertar, no Equador, 12 reféns das Farc.

- Todo contato com a guerrilha foi feito por motivos humanitários e com outros países, como a França - disse Correa em cadeia de rádio e TV. - Lamentamos informá-los que as conversações estavam bastantes avançadas para libertar no Equador 12 reféns, entre eles, (a ex-candidata à Presidência da Colômbia) Ingrid Betancourt.

A morte de Reyes é para muitos analistas um revés para a França, que tinha o guerrilheiro como um contato para negociar a libertação de Ingrid. Ontem, ex-reféns da guerrilha e parentes de seqüestrados disseram temer que a crise interrompa as negociações para a libertação dos reféns.

- Essa escalada militar deixa os reféns em situação ainda mais dramática. Temo por suas vidas - disse a ex-congressista Gloria Polanco.

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