Por Carlos Alexandre
Correio Braziliense - 05/11/2013
 
Em processo contínuo e disseminado, a imprensa sul-americana está pagando o alto preço de preservar os frágeis valores da democracia no subcontinente. A decisão judicial que obriga o grupo argentino Clarín a desmontar o conglomerado de empresas sacramenta a vitória de Cristina Kirchner e representa um duro golpe na livre iniciativa empresarial e na liberdade de expressão, sob a hipócrita e risível justificativa de democratização dos meios. Há anos, o fluxo de informação e a opinião pública deixaram de ser monopólio da mídia, mas governantes com ambições baixas insistem em utilizar instrumentos políticos, judiciais e econômicos para calar a voz do inconformismo e da crítica.

Assim como a Argentina, outros países concentram ataques à imprensa. Na Venezuela, o jornal El Nacional corre o risco de deixar de circular porque está impedido de comprar papel no mercado exterior, fruto de boicote estabelecido pelo governo de Nicolás Maduro. A política de combate ao trabalho da imprensa montou trincheira na Comissão de Administração de Divisas, instância reguladora do fluxo de dólares. Como o governo lacaio de Hugo Chávez não libera os dólares para aquisição de papel, insumo não produzido na falimentar economia venezuelana, o El Nacional é punido por inanição. “Esta é a forma que a semiditadura venezuelana encontrou de fechar os jornais”, protestou Claudio Paolillo, presidente da Comissão de Liberdade de Expressão da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), como informa O Globo.

Na ausência de uma oposição nas democracias em formação da América Latina, cabe à imprensa a missão de ir ao enfrentamento contra os inquilinos do poder. Ocorre que a mídia não assume cargo público nem administra o erário, como os políticos profissionais. Não tem mandato. Reproduz a opinião da sociedade, independentemente da linha editorial. O empenho dos governos disfarçadamente democráticos em liquidar o trabalho da mídia constitui, mais do que um exercício de poder, um atentado à própria democracia.

No Brasil, o viés petista diz tolerar a liberdade de imprensa, mas amiúde o espasmo autoritário se manifesta em iniciativas para criar um mecanismo regulatório à atividade jornalística. Note-se que o cacoete antidemocrático não é característica dos ocupantes do poder; constitui um traço da personalidade social brasileira. Os argumentos canhestros apresentados pelos pseudocensores do Procure Saber revelam a herança do autoritarismo na mentalidade nacional.
 

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