Por Marco Balbi

Em 1963 eu tinha 15 anos de idade. Estudava no excelente Liceu de Humanidades de Campos, cursando o então 1º ano científico. Frequentava a Federação dos Estudantes onde jogava damas e xadrez. Lia os jornais na biblioteca municipal. Acompanhava a conjuntura da época com preocupação. Meu pai vivia sob a ameaça do desemprego e precisava esticar o orçamento ao máximo; minha mãe, dona de casa, cumpria todas as tarefas domésticas para atender as necessidades básicas de uma família classe média, composta ainda por uma irmã mais nova.

            A situação deteriorava-se rapidamente, mas vozes da sociedade destacavam a necessidade de por fim aos desmandos e ao desgoverno que conduzia o país ao caos e a tempos que prognosticavam-se negros. A sociedade campista marchou ombro a ombro, estudantes e professores, religiosos e donas de casa, profissionais liberais e comerciários. E foi com satisfação que todos viriam a celebrar a reação democrática de março de 1964. 

            Consulto regularmente as seções dos jornais que apresentam um resumo dos fatos de 50 anos atrás. Peço a todos que o façam. E, confesso, estou estupefato com o que estou assistindo hoje. Vejo o governo federal vivamente empenhado em resgatar, seria melhor transformar, Jango num homem competente e num injustiçado. Utiliza toda a máquina governamental, empenha pelo menos dois ministérios e os respectivos ministros, convoca, sabe Deus a que preço, peritos(?) internacionais ( não seriam os nossos competentes?) para exumar o corpo, passeia com o féretro pelo país, leva o cortejo a Brasília e conclama o povo a participar. Não adianta. Jango foi um dos piores governantes que o país já teve, embora alguns atuais estejam dispostos a lhe fazer forte concorrência. O país estava ao Deus dará e se preparava para se tornar uma nação comunista, provavelmente com uma luta muito sangrenta e fratricida. Quem salvou o Brasil foi a reação democrática dos brasileiros, conduzidos por líderes políticos, religiosos e militares que no momento oportuno intervieram. Jango fugiu. E agora querem provar, também, que ele ainda estava no país quando o Presidente do Congresso declarou o cargo vago e assim teriam usurpado do seu cargo. É demais!

            Mas, alguns anos mais tarde, eu já me tornara profissional, quando o país se viu envolvido em outra guerra. Travada sem combatentes uniformizados e sem trincheiras, envolvendo pequenos efetivos. As forças da democracia mais uma vez sobrepujaram, pelas armas, aqueles que se contrapunham ao Estado, pretendendo mais uma vez implantar um sistema comunista no Brasil, implantar a ditadura do proletariado na qual acreditavam e acho até que, mesmo à luz da história, ainda acreditam. Assisti a tudo. Pois eis que agora uma comissão de professores universitários resolveu reescrever estas páginas e recontá-las aos alunos nas escolas. Decretaram que ela está sendo ensinada de maneira equivocada e pretendem reformular o ensino do período considerado que vai de 1964 a 1985. Faço votos que os pais e os responsáveis dos alunos reajam. Ou será que eles também já sofreram com o revisionismo histórico imposto pelos discípulos de Gramsci nas universidades brasileiras?

            Para finalizar chego a reunião da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos que realizará uma sessão especial aqui no Brasil, a convite do STF. O caso a ser julgado parece-me que não diz respeito ao nosso país, mas é emblemático para a Colômbia. A reunião servirá para demonstrar como as coisas funcionam na Corte. O Brasil tem algumas centenas de acusações, com destaque para os desaparecimentos dos guerrilheiros no Araguaia. Alguns doutos constitucionalistas brasileiros já destacaram que a Corte não tem jurisprudência alguma sobre as Cortes e as decisões aqui tomadas, mas sabe-se lá o que poderá acontecer num futuro. Cogitam os revanchistas de submeter à Corte a revisão da Lei da Anistia e até os mensaleiros injustiçados pretendem a ela recorrer. Salve-se quem puder.

            Assim, concluo este texto com o título que eu a ele conferi: tempos estranhos que o hoje senhor de 65 anos não imaginava participar e assistir.

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