Editorial
O Globo -15 Nov 2013  
A URSS tornou-se superpotência com  base no planejamento centralizado,  na crença de que as leis de mercado podiam ser substituídas pelo trabalho de camaradas planejadores e economistas. Sucumbiu. Apesar do caráter instável do capitalismo, amplamente conhecido, a outra superpotência, os EUA, ainda está aí. Os líderes da China viram que, se continuassem no modelo soviético, teriam o mesmo fim.

Criaram uma situação híbrida, de controle político centralizado, mas economia cada vez mais aberta e sensível às necessidades dos consumidores. Enquanto isso, líderes de países periféricos tentam reinventar a roda. Foi o caso de Hugo Chávez, na Venezuela, ao lançar o "socialismo do Século XXI", com altas doses de autoritarismo e populismo.

O lema é dotar o Estado de superpoderes capazes de proteger o "povo indefeso" da sanha da "burguesia parasita". Em 14 anos, o chefão bolivariano, morto em março, embarcou numa cruzada contra a empresa privada. Segundo o Banco Mundial, a Venezuela está em 181° lugar entre 189 países no que se refere a clima para negócios.

Chávez se valeu da enorme riqueza da Venezuela — o petróleo — para financiar suas políticas. A interna, baseada em programas sociais que tanto lhe garantiram votos quanto reduziram a miséria: segundo o Banco Mundial, a taxa de pobreza recuou seis pontos percentuais, para 25,4%. A externa, voltada para expandir o bolivarianismo na América Latina, tornar-se um bastião antiamericano e sustentar o comunismo em Cuba.

Quando Chávez morreu, o modelo já dava mostras de esgotamento. Assumiu Nicolás Maduro, o vice indicado pelo próprio Chávez. De lá para cá, a situação só piorou. Maduro não tem o mesmo cacife e passou a sofrer concorrência interna pelo espólio de Chávez. A crise econômica se agravou, e sua reação foi aprofundar o chavismo.

Em situação de absoluta escassez, Maduro busca bodes expiatórios. A inflação bate nos 54% anuais e ele manda fechar lojas por praticarem preços "abusivos". Pede ao Congresso, e deverá obter, permissão para legislar por decreto. Pretende "colocar limites percentuais nos lucros do capital em todas as áreas do aparato produtivo venezuelano". Lança, assim, as bases do desabastecimento total. Seria conveniente que pensasse nas consequências.
 

 

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