Visão do Correio
Editorial 
Correio Braziliense -  16 Nov 2013 
Medidas anunciadas por Nicolás Maduro pecam não só pela falta de originalidade mas também pelo resultado previsível. Diante da crise que se aprofunda, o presidente venezuelano busca bodes expiatórios. Responsabiliza o comércio pela inflação de 54% anuais em vez de olhar o desafio de frente.

A acusação não se restringe ao discurso de "pôr limites percentuais aos lucros do capital em todas as áreas do aparato produtivo". Chega às vias de fato. Lojas e supermercados, que estariam cobrando preços abusivos, são forçados a fechar as portas. Trata-se da reprise de filme cujo epílogo é o desabastecimento.

Além das prateleiras vazias, outros problemas assombram o governo. É o caso dos frequentes e longos apagões, fruto da falta de investimentos no setor que, defasado e obsoleto, mostra-se incapaz de atender as demandas do consumo crescente. Crise energética, vale lembrar, revolta a população e afugenta investimentos.

A situação é insustentável. Em vez de respostas eficazes, que apontam para a economia de mercado, Maduro pede à Assembleia Nacional — e deve conseguir — leis habilitantes para governar por decreto. Há denúncias de que a maioria que lhe garantirá legislar à margem do Legislativo resulta da prisão de deputada acusada de corrupção. Ela foi substituída por suplente comprometido com o esquema político do presidente.

Longe da democracia e da modernidade, Maduro quer impor uma só verdade. Inspira-se no antecessor, que recorreu à Constituição para adaptá-la às próprias conveniências. Hugo Chávez, ao longo de 14 anos de mandato, financiou o projeto político com a abundância de petróleo. Graças aos recursos extraídos do solo, afundou o país em atraso, autoritarismo e demagocia.

Criou um tal de Socialismo do Século 21, que nem ele sabia definir. Tornou-se inimigo número 1 da iniciativa privada e da liberdade de expressão. Inspirado no falido modelo soviético, investiu no Estado todo-poderoso sem levar em conta as leis do mercado. O resultado: além de blecautes e falta generalizada de mercadorias, pôs a Venezuela no ranking dos países mais hostis para os negócios. Entre 189 nações, o país aparece na 181ª posição.

Mas existe o outro lado da moeda. Chávez reduziu a pobreza e a desigualdade social — feitos que lhe asseguraram a perpetuação no poder até a morte, em março deste ano. Maduro quer trilhar o mesmo modelo, apesar da realidade adversa. Esquece-se da advertência de Karl Max: "A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa". Sem a unanimidade do antecessor, é provável que a situação alarmante imponha solução política indesejável e leve de roldão o presidente.
 

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