Enver Hoxha: o líder que criou uma mitologia sobre a Albânia que enganou os comunistas do PCdoB
Por Irapuan Costa Junior
Li, apenas por curiosidade, o livro “Albânia — Horizonte Vermelho nos Bálcãs”, do jornalista paranaense Luiz Manfredini (Editora Alfa Omega). O livro é de 1985, uma crônica elogiosa da Albânia — um verdadeiro caso de amor —, após uma visita de 20 dias feita, em 1984, pelo jornalista, comunista e incorrigível stalinista, pelo seu apaixonado relato.

 

 Na época, a Albânia era o último país stalinista existente. Havia rompido com a União Soviética, pois o ditador (desde 1945) albanês Enver Hoxha não aceitou as críticas de Krushev a Stálin, no seu entender um dos luminares da humanidade; e também com a China, por ter ela feito algumas tímidas aberturas econômicas nos anos 1970 e 1980. Era o país mais isolado do mundo, e o mais atrasado da Europa. Os comunistas mais radicais (inclusive os brasileiros do PCdoB) viam a Albânia como um paraíso, o único país verdadeiramente comunista do globo. Embora dispondo de algumas riquezas naturais importantes (como cromo, petróleo e grande disponibilidade de aproveitamentos hidrelétricos), sofria a incompetência da rígida ditadura comunista para aproveitá-las. É um país pequeno (29 mil quilômetros quadrados) e de pequena população (menos de 3 milhões). Tinha, na época da visita de Manfredini, uma renda per capita de 800 dólares. A renda dos vizinhos era muitas vezes maior; a da Grécia 10 vezes, a da Itália, 20. 

A Albânia era um país sofrido. Sob ocupação otomana até 1912, foi monarquia até 1939, quando foi invadida pela Itália. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, entrou em cena a ditadura comunista de Enver Hoxha, chefe guerrilheiro contra as tropas de ocupação, obediente sem pestanejar a todas as ordens de Stálin. Hoxha reinou absoluto até que problemas de saúde o afastaram e abateram, em 1985, um ano após a entusiasmada visita de Manfredini. 

Hoxha acreditava que o mundo estava dividido em três partes: a Albânia, reduto inexpugnável do comunismo, a área capitalista e a área revisionista (URSS e China, principalmente). Capitalistas e revisionistas estavam mancomunados, dizia. 

O regime comunista resistiu mais cinco anos, até a queda do muro de Berlim, quando o país entrou em verdadeira convulsão e os vizinhos — Itália principalmente — tiveram que fechar as fronteiras para conter o êxodo de albaneses, dispostos a emigrar em massa para fugir do atraso e da escassez a que o país havia sido reduzido pelo regime comunista. A Albânia se esvaziaria, se deixassem. Hoje, democratizada, tem boa parte de sua população vivendo nos países vizinhos e suas remessas constituem importante fonte de receita. 

Manfredini é um caso do padre Vieira, que dizia em seu sermão: “Se com amor, o corvo é branco, se com ódio, o cisne é negro”. O jornalista só viu alvura na atrasada e paupérrima Albânia, único país na Europa sem um estabelecimento sequer de ensino superior. En¬cantado com a industrialização, que no seu dizer estava redimindo o país, elogiava o “Combinado de Automóveis e Tratores Enver Hoxha”, uma fabriqueta de peças para as máquinas obsoletas que russos e chineses haviam abandonado na Albânia quando retiraram seus técnicos. Ou o “Combinado Têxtil Stálin”, de Tirana. Imagino a qualidade dos tecidos que saíam dali. 

Manfredini faz uma apologia apaixonada do ditador Enver Hoxha, que segundo ele, “incorporou a angústia do povo e tornou-se herói”. A crer em Manfredini, era amado e idolatrado, salve, salve, por toda a população, sem exceções. Na realidade, com a queda do muro de Berlim, o povo apressou-se em pôr abaixo do pedestal, a enorme estátua que o ditador havia mandado colocar em homenagem a si mesmo, na capital albanesa, Tirana. 

Enver Hoxha tinha uma paranoia: achava que um conluio americano-soviético preparava-se para invadir a Albânia (para que, não se sabe). Mandou construir 700 mil casamatas por todo o país, para resistir a essa invasão. Queimou recursos que dariam para resolver o grave problema habitacional do país. Manfredini fala dessas casamatas, onde “o povo resistiria à invasão, até o extermínio de todos os seus habitantes”. Um Canudos muitas vezes ampliado. Na verdade, o que se viu, tão logo afrouxou-se a ditadura foram não albaneses aferrados ao solo, mas ansiosos por buscar uma oportunidade na Grécia ou na Itália. E as casamatas hoje servem para as baladas dos jovens. Mas o fecho do livro de Luiz Manfredini, que dá seu título, é grandiloquente: “[Na Albânia] floresce, não sem dificuldades, sacrifícios e lutas, um horizonte vermelho que fatalmente se derramará por toda humanidade”. Deus (ou os ateus?) nos livre. 

 

 

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