Estudantes chilenos que lideraram as manifestações dos últimos anos não renegaram a política e os partidos: participaram do processo e foram eleitos para o Congresso
EDITORIAL
O Globo - 20/11/2013

O resultado das eleições no Chile mostra um aspecto interessante para o Brasil, sobre a participação de jovens na política. A abstenção ficou acima de 40%, mas os estudantes, que passaram alguns dos últimos anos em manifestações nas ruas, que resultaram em violentos confrontos com a polícia, não somente foram às urnas como elegeram alguns de seus líderes para o Congresso. A partir de 2014, com novo governo e novo Congresso, o grande tema do debate político deverá ser a reforma educacional, imposto pelas ruas como um dos principais pontos da plataforma de todos os candidatos. Em vez de renegar a política e partidos, os estudantes (ao menos grande parte) optaram pelo debate dentro das regras da democracia. E elegeram alguns de seus líderes ao Congresso.

Chama a atenção a distância entre a opção dos estudantes chilenos e o comportamento de parte dos que saem às ruas no Brasil desde junho. Lá, a decisão coerente de tentar mudar o jogo dentro do sistema. Aqui, manifestações difusas, que se tornaram reféns dos black blocs — grupos anarquistas sem liderança definida, que “atacam” o capitalismo destruindo vitrines, máquinas e agências bancárias, prédios e bens públicos. E infiltrados por bandidos e “soldados” do tráfico, interessados em desmoralizar políticas públicas exitosas, como a de pacificação de comunidades no Rio de Janeiro.

Os protestos no Chile se concentram, desde 2006, no governo de Michele Bachelet, na reforma da educação. O principal objetivo era a abolição da Lei de Ensino, promulgada pelo general Pinochet e publicada um dia antes do fim do regime militar. Na liderança estavam os estudantes secundaristas. Devido às cores e ao corte tradicional do uniforme, o movimento ficou conhecido como a Revolução dos Pinguins. A greve geral de maio de 2006 envolveu cerca de 600 mil jovens. As manifestações, com adesão de universitários, voltaram no atual governo de Sebastián Piñera, que fez reformas consideradas insatisfatórias.

No Brasil, o estopim dos protestos foi o aumento das passagens de ônibus em São Paulo. A partir daí, o descontentamento represado em décadas de serviços de saúde e educação deficientes explodiu em manifestações pacíficas nas grandes cidades. Os objetivos eram difusos. E logo grupos radicais desvirtuaram a ação.

O segundo turno eleitoral acontece em 15 de dezembro e a vitória da oposição, como a ex-presidente Michele Bachelet, parece certa. Para fazer as reformas, qualquer governo dependerá do novo Congresso. Líderes estudantis que se elegeram, como Camila Valejo, de 25 anos, Giorgio Jackson e Gabriel Boric, de 26., terão de dizer a que vieram.

Os estudantes chilenos conseguiram até que a favorita Bachelet incluísse a reforma da educação na plataforma para o segundo mandato. No Brasil, multidões mostraram insatisfação, e hoje são uma incógnita.


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