Irapuan Costa Junior 
Edição 2003 de 24 a 30 de novembro de 2013 
 Vejo toda a movimentação da semana passada, em torno dos restos mortais do ex-presidente João Goulart. Pontos a ponderar: 1) Impressiona, no Brasil, como as pessoas ficam boas após a morte, pouco interessando o que foram em vida. Quase toda a imprensa está enaltecendo a figura de João Goulart. Jango foi um presidente fraco, relapso (cuidava mais de suas fazendas do que do governo), marcado por denúncias de corrupção. Nem a valentia tradicional dos gaúchos tinha. Na renúncia de Jânio, em 1961, era vice-presidente e estava na China. Teve medo de desembarcar, como presidente constitucional que era, em Brasília.

Deu uma volta aérea para aterrissar no Rio Grande do Sul. Lá recebeu algumas injeções de coragem aplicadas por Brizola — seu cunhado — e só então assumiu a Presidência.

Jango correu de Brasília para o Rio Grande do Sul e de lá para o Uruguai quando soube das primeiras movimentações nos quartéis, no dia 31 de março de 1964. Sem esboçar reação, pôs-se a salvo — tinha fortuna para viver em qualquer lugar do mundo — enquanto seus subordinados, os sargentos que ele insuflou contra seus superiores, os comunistas que ele tolerou flertando com Rússia, China e Cuba, e tantos outros iam para a cadeia, para o exílio, ou para a clandestinidade. Não deixou uma marca sequer de realização ou criatividade em seu governo.

O líder do PTB teve um papel pífio na Frente Ampla, onde quem trabalhava, entre todos os políticos cassados, era Carlos Lacerda. Um poltrão, enfim.

2) A esquerdalha adora reescrever a história, apagar personagens de fotografias, falsificar a realidade, tentando tornar seus delírios algo terreno e palpável. Nunca conseguiu, mas nunca deixa de tentar. Tornar Jango uma figura respeitável é a tentativa do momento, e uma maneira de fazê-lo é levantar suspeitas sobre sua morte. Apesar de todos saberem que Jango era um cardiopata final quando morreu, cuja morte era indiferente para o governo militar, já que nenhuma ameaça jamais representou, o assanhamento na ala mais canhota do governo é grande.

Os inevitáveis José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça (!) e Maria do Rosário, secretária dos Direitos Humanos (!) lá estavam, em São Borja, na exumação do corpo. Para eles, um acontecimento festivo (até bufê contrataram). Maria do Rosário deixou-se fotografar ao lado de um perito cubano, Jorge Perez, chamado para participar da exumação e da tardia autópsia. D. Maria estava em êxtase, vê-se pela foto. Sorria, coisa que nunca faz. E mais, declarou que, ainda que não surjam evidências de um envenenamento de Jango, ela não se dará por satisfeita. Ou seja: entre a versão esquerdopata e os fatos, para ela vale a versão, quaisquer que sejam os fatos.

3) É muito suspeita a presença desse cubano entre os peritos, que  se comporta como uma espécie de chefe dos demais. Chefe deveria ser o perito da Polícia Federal, Amaury de Souza Junior. O que faz esse Perez aqui, se não é de nenhum dos países envolvidos na questão da deposição e do asilo de Jango? Homem de confiança da ditadura cubana, é, sem dúvida, um cumpridor de ordens castristas muito capaz — capaz de tudo. Todos sabemos que mais de três décadas depois do falecimento de Jango, seria muito difícil constatar a “causa mortis”. Mas sabemos também que é muito fácil levantar dúvidas, úteis a figuras como D. Maria do Rosário e seus stalinistas caboclos.

 

Comments powered by CComment