Pesquisas com milhos transgênicos são destruídas em Santa Cruz das Palmeiras (SP)

Por SÉRGIO PARDELLAS
Empresas como Monsanto e Vale acusam o MST e a Via Campesina de provocarem prejuízos de US$ 200 milhões e vão brigar na Justiça

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A onda de protestos e invasões promovida pelo MST, Via Campesina e Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) contra o agronegócio em pelo menos 18 Estados escolheu como alvos preferenciais a mineradora Vale e a transnacional americana Monsanto. As ações guardaram a mesma característica: foram organizadas por lideranças não pertencentes às comunidades que vivem nos arredores das áreas ocupadas pelas empresas. Essa constatação reforça a tese de que os atos tiveram cunho eminentemente político, o que vai alterar a estratégia das empresas para evitar novas invasões e, simultaneamente, buscar a reparação dos prejuízos estimados em US$ 200 milhões. Se, em outras situações, a negociação com os movimentos sociais foi considerada o melhor caminho para alcançar o entendimento, agora as empresas dizem que não há alternativa senão recorrer à Justiça. “Vamos processar os líderes dos movimentos. Trata-se de um movimento político. Estão querendo usar a Vale somente para ganhar visibilidade”, acusou o diretor-executivo de assuntos corporativos e energia da mineradora, Tito Martins. A Vale, afirma ele, sempre investiu no relacionamento com os moradores de regiões exploradas pela mineradora. “A interlocução é freqüente com públicos que possam sofrer algum tipo de impacto, positivo ou negativo, com nossos projetos”, explicou. 

Em Estreito, onde cerca de 200 ativistas ocuparam a entrada de acesso ao canteiro de obras da usina hidrelétrica por 11 horas, já foram feitos 39 convênios socioambientais com a maioria dos municípios da área, de acordo com o presidente do Consórcio Estreito Energia, José Renato Ponte. O canal de diálogo com os moradores e associações de classe e de bairro permanece aberto. “Nosso relacionamento com a população local é o melhor possível”, garante Ponte. Por isso mesmo, as empresas não reconhecem como legítimas as manifestações do MST, da Via Campesina e do MAB. Alegam que não há nem pauta de reivindicação por parte dos movimentos. E entendem que, desta vez, o litígio judicial será inevitável. “Esses movimentos não estão na nossa área de influência, não podem dizer que foram prejudicados. Discordamos desses atos de banditismo e não negociamos com bandidos”, ataca Tito Martins. A direção da Monsanto, que teve o acesso a sua subsidiária, a Agroeste, fechado por 700 mulheres em Xanxerê (SC), e sofreu uma invasão na sua unidade em Santa Cruz das Palmeiras (SP), faz coro com a Vale. Em nota, a Monsanto indicou que vai cobrar na Justiça a reparação dos prejuízos causados pela perda de dois anos de pesquisas com milho transgênico: “A Monsanto condena veementemente atos ilegais como este, que, inclusive, desrespeitam recentes decisões do Poder Judiciário.” 

A versão dos movimentos sociais é diferente. Cirineu Rocha, um dos líderes do MAB, garante que estão em jogo três reivindicações: a abertura do diálogo com o consórcio do qual a Vale faz parte, a criação de um fórum de negociação e a aplicação de direitos já conquistados em outras barragens. “Na hidrelétrica de São Salvador, as famílias atingidas receberam 27 hectares de terras ou carta de crédito de R$ 70 mil. Aqui, em Estreito, estão oferecendo apenas 12 hectares ou carta de R$ 35 mil”, reclama Rocha. O certo é que, desde agosto, a Vale já foi vítima de sete invasões em suas propriedades. Só nesta semana foram três. No sábado 8, os manifestantes depredaram uma unidade da Ferro Gusa do Maranhão. Na segunda-feira 10, os protestos bloquearam a estrada de ferro que liga Vitória (ES) a Minas (EFVM). E, na terça, foi a vez da hidrelétrica de Estreito. Maior projeto de geração de energia em curso no País, Estreito terá capacidade para gerar 1.087 megawatts a partir de 2010. A barragem deve inundar uma área de 430 quilômetros quadrados, onde estão 12 municípios de Tocantins e do Maranhão. Com o conflito, o cronograma da obra vai atrasar, segundo os responsáveis pelo consórcio. Na ação contra a Vale em Minas, 800 ativistas, que querem discutir com a mineradora o reassentamento de famílias, ocuparam, por 12 horas, os trilhos de uma das principais ferrovias da empresa, no município de Resplendor. Resultado: cerca de 300 mil toneladas de minério deixaram de ser transportadas, afetando a programação de exportações no Porto de Tubarão.

 

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