Por Ubiratan Iorio
A renúncia de Fidel à presidência de Cuba não significa que tenha deixado o poder, mas tem gerado muitos comentários sobre o seu legado e o futuro da ilha caribenha. Socialistas de plantão, como que procurando penas em cabritos, tecem loas a seus feitos, desde que, em 1959, derrubou o ditador Fulgencio Batista e, traindo a confiança que nele depositou o povo cubano e sob os auspícios da defunta URSS, implantou um regime de exceção no pequeno e simpático país. Regime, por sinal, crudelíssimo, responsável pela morte de 17 mil opositores e que levou cerca de dois milhões a deixarem Cuba rumo ao "imperialismo" dos Estados Unidos, muitos dos quais arriscando as próprias vidas na travessia marítima.

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Sua herança é a mesma de todos os capi dos países que cometeram a insanidade de optar pelo chamado "socialismo real": igualdade de resultados, ou seja, pobreza, escassez e racionamento para todos - inteligentes, estúpidos, capazes, incapazes, trabalhadores e malandros - com exceção de seus amigos e membros do partido. Meio século de anos de chumbo, eis o seu legado! Pasma que os admiradores do ditador estejam neste momento papagueando que todos devem respeitar a "autodeterminação" do povo cubano. Mas que autodeterminação, se só há um partido, se não existe qualquer respeito às liberdades individuais, se é proibida qualquer manifestação contra o governo e se ninguém pode deixar o país?

Como olhar para o passado, para o que Fidel e seus comparsas fizeram, só serve mesmo para fins de aprendizado - o de como se escraviza um povo de alma alegre em nome de uma utopia que jamais deu certo - é melhor vislumbrar o futuro. Pensar que seu irmão Raúl, novo presidente eleito em um pleito de partido único e com as cartelas marcadas, porá fim ao socialismo espontaneamente, é uma ilusão. Irmão de peixe, peixe é, ainda mais quando nadando nas águas deliciosas do poder.

Alguns apontam para o caminho chinês, com abertura econômica gradual e manutenção do regime político ditatorial. Não creio nisto, porque não se pode comparar a economia da China com a de Cuba: a dimensão daquela torna prorrogável, até certo ponto, o regime político fechado; já o tamanho ridículo da segunda inviabiliza tal alternativa. Queira ou não Raúl, o socialismo em Cuba está com os dias contados. O que não se sabe é se serão poucos ou muitos dias. Economias de mercado não podem conviver por muito tempo com ditaduras políticas, assim como economias planificadas não podem coexistir para sempre com liberdade política.

A causa da pobreza generalizada - ou "bem distribuída" - de Cuba não é o propalado "embargo comercial", é a ineficiência crônica de todos os regimes socialistas! A recuperação rápida da liberdade dos cubanos depende, contudo, de sua abolição explícita (a tácita já ocorre há tempos). Nos tempos em que a ilha vivia de mesadas da URSS o embargo era justificável, mas, nas circunstâncias atuais, creio que seria mais inteligente abandoná-lo formalmente. Primeiro, porque isto retiraria argumentos de Chávez, Correa, Lula e seus amigos do Foro de São Paulo (FSP) para continuarem ajudando os companheiros em dificuldades, o que vem prolongando a agonia do socialismo no Caribe; segundo, porque desarmaria a falácia de nossa esquerda caviar de justificar a miséria que se abate sobre Cuba pelo embargo; e terceiro, porque a entrada de capitais, as vantagens do comércio, a formação de riqueza, a perspectiva de oportunidades de se viver melhor e outras facetas da economia de mercado fariam brotar da economia para a política uma força inelutável que, sem necessidade de luta fratricida, colocaria as coisas em seu devido lugar, devolvendo aos cubanos a liberdade e os direitos básicos surrupiados há meio século. Pelas dimensões pequenas da economia, o processo será rápido, contrariamente ao que vem ocorrendo na China.

A abolição plena do embargo a Cuba, com a introdução de fora para dentro da economia de mercado, seria também um golpe muito bem desferido contra a idiossincrasia patológica do FSP, de criar na América Latina uma cópia da antiga União Soviética, confirmada pelas reações nada surpreendentes de Chávez, Correa, do nosso Itamaraty e do próprio Fidel ao episódio em que Uribe, cansado dos crimes das Farc e da guarida que os ideólogos do Foro dão àquela organização terrorista, mandou fulminar Reyes e alguns comparsas em território equatoriano.

Economia de mercado neles, para libertar os cubanos e desarticular de vez o FSP!

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