PAULO BROSSARD
ZERO HORA - 09/12

Sem exagero, pode-se dizer que, com a morte de Nelson Mandela, desaparece uma grande figura humana; independente da cor da sua pele e da posição por ele assumida ao enfrentar o enorme poder estatal que o levou à prisão por 27 anos, era um homem. Era um homem que, ao cabo desse longo tempo de encarceramento, teve a grandeza e a sabedoria de, assumindo a liderança da maioria negra da África do Sul, selar a mútua convivência que não existia entre brancos e pretos. Era uma sociedade em que suas partes não se conheciam ou conviviam.

Em vez de fel ao sair da prisão, ele trazia o mel no coração e, desse modo, ao retomar a liberdade, veio a realizar o milagre da junção de duas parcelas originalmente desavindas, em recíproca aversão decorrente da congênita animosidade senão repugnância. Graças à ação daquele homem que passou no cárcere quase o período de uma geração, o negro apesar de ser negro, e o branco, a despeito de ser branco, deixaram de ser incompatíveis e como seres humanos passaram a conviver. Também aqui suponho não exagerar ao dizer que, sem ele, o fenômeno não teria se consumado e tornado indivorciável. E o que é mais: o inacreditável se operou em poucos sóis.

Foi presidente da República e continuava a ser a personalidade mais notável de sua pátria. Em vida colheu as maiores homenagens, principalmente internacionais, o Prêmio Nobel da Paz entre elas, e ainda em vida atingiu a imortalidade. Morreu um imortal, quer dizer, o arcabouço material cessou de funcionar, mas a imortalidade transcende o tempo e não se apaga.
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Aqui, na vulgaridade dos dias sem brilho, vão acontecendo coisas estranhas; condenados e condenados pelo mais alto tribunal da nação foram 25 e 12 absolvidos; em sua maioria ou não, vem se distinguindo pelas críticas às pessoas dos juízes que os julgaram. Um deles, talvez o de mais alta posição político-social em razão da prisão em regime semiaberto que lhe ensejaria trabalhar durante o dia e recolher-se à prisão durante à noite, conseguiu emprego no Hotel Saint Peter com remuneração de R$ 20 mil mensais. O ex ministro ora condenado e já empregado no mencionado hotel, sem demora desligou-se do emprego já assegurado. Vale acentuar que, segundo divulgado, o hotel pertence a empresa panamenha Truston International, cujo presidente seria o auxiliar de escritório José Eugênio Silva Ritter que residiria em bairro pobre da cidade do Panamá; teria ele declarado que nem se lembra da empresa da qual é presidente, tantas são elas, mais de mil e das quais é sócio. Esses os fatos divulgados pela grande publicidade. Tais dados por sua singularidade despertaram dúvidas e suspeitas, até porque não se escondem os donos da empresa gratuita e imotivadamente.

Não quero extrair ilações dos estranhos dados da empresa proprietária do Hotel Saint Peter, mas não há dúvida que eles surpreendem, pois são invulgares. Nessa altura torna-se evidente que o problema do mensalão carece de esclarecimentos que podem ser necessários para a inteira compreensão da extraordinária ocorrência.

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