TODO CARRAPATO TEM DIREITO A SER ESTRELA,
MESMO QUE SEJA UM CHATO
Por Fernando C. Antoniazzi(*)

Oportuno seria a fundação de uma ONG que defendesse o direito dos carrapatos e outros acarinos. Lembremo-nos que nem todos os carrapatos são portadores de Rickettsia rickettsii e, logo, nem todos transmitem a febre maculosa. Por que tanto preconceito?
Ora, os carrapatos devem ter direito a uma capivara saudável para chamar de sua! Aliás, cada carrapato deveria ter sua própria cota de capivara, desde que esta cumprisse sua função social; pois, incorrendo em esbulho possessório, a cota-capivara deveria ser objeto de preempção, para que carrapatos menos favorecidos pudessem compartilhá-la em comunidades, sem limites de território sobre o couro do roedor, garantindo o direito de ir e vir e praticando a sanguessuguice de subsistência.
Basta ao preconceito!

Acresço: protestos em praças públicas deveriam ocorrer cada vez que um carrapato fosse acusado de sarnento. Sarna é coisa de parente próximo, mas não é culpa dos carrapatos. Parente a gente não escolhe!

Outro direito inalienável aos acarinos domésticos é o da alcatifa própria. Não há que se discutir mais este ponto, comprovada a posse do trecho da alcatifa em demanda, desde que não fosse tapetão público, o ácaro poderia usucapir o seu quinhão, ao qual seria concedido um título provisório de posse e, caso não comprovado o uso domiciliar, o mesmo seria sumariamente despejado e seu CPF inscrito no Livro dos Abjetos Ácaros Especuladores. Ai daquele ácaro que fosse pego sublocando seu pelego! Extermínio imediato, com altas doses de ozônio letal, para que sirva de exemplo. Afinal o direito de residir numa mantinha xadrez corresponde inexoravelmente ao dever de mantê-la somente para fins de moradia própria.

Regras de convivência pacífica entre humanos, acarinos e afins deverão ser criadas e, antes de votadas pelo Legislativo, submetidas aos Conselhos Municipais, verdadeiros bastiões da democracia popular. Ao Poder Legislativo caberia apenas referendar a opinião dos diversos Conselhos, encimando o merengue com uma cerejinha.

Um dos aspectos a serem abordados é o prejuízo da qualidade ambiental causada aos ácaros pelo aumento da camada de ozônio domiciliar, gerada pelos ozonizadores domésticos. Conviria uma campanha massiva junto à população para a devolução voluntária de ozonizadores, os quais seriam entregues à Polícia Federal em troca de um reembolso módico; seguir-se-iam manifestações cívicas, com fanfarras e bandas de pífanos em determinado dia, Feriado Nacional da Consciência Desozonizada, em que os aparelhos seriam destruídos em logradouro público por intermédio de rolo compressor de pavimentação asfáltica.
Eventualmente, para manter o aparelho de ozonização em casa, as pessoas poderiam ter analisados seus pedidos de concessão de uso pelo Estado, que seriam permitidas desde que comprovada sua real necessidade, baixa potência e cadastrando-o no SINOUD (Sistema Nacional de Ozonizadores de Uso Doméstico), fazendo seu uso restrito a pequenos ambientes de confinamento de pessoas com comprovada intolerância alergênica aos ácaros, contra apresentação de laudo e teste de DNA, que caracterize a incapacidade genética de adaptação e inequívoca condição de ausência de acarofobia preconceituosa, sendo considerado isto um neo-apartheid apenas culposo, totalmente involuntário, mas sujeito a Termo de Compensação, culminando em empréstimo compulsório ao Fundo das Relações Emocionais dos Artrópodes.

Numa época em que o ambientalismo extremo beira as raias do paganismo fanático, nada mais que justo o nonsense descrito.

Em flagrante contra-senso, atualmente há ONGs ambientalistas que defendem com energia férrea “A VIDA" e, no entanto a vida humana é posta em plano até terciário, inclusive com pregações que lembram a idéia cátara da auto-extinção. Em Pindorama a situação tem agravantes de ordem jurídica, advindos da tal Constituição Cidadã, orquestrada pelo onomástico do herói virgílico, que comumente discorria sobre o ideário socialista bebericando poire. Nada de novo sob o sol, desde o Eclesiastes, pois socialistas feéricos adoram filosofar sobre a causa dos excluídos quando se encontram no Jockey Club: os cavalheiros vestindo ternos caros e as damas usando roupas de grife, suando aos cântaros sob o sol da zona intertropical... Coisa de celebridades (sabe lá Deus o que, de fato, isto significa).

Bem, como tudo acaba numa edição especial da “Revista Faces”, saudemos a oportunidade democrática de que todo carrapato tem direito a ser pop star, mesmo que seja um chato.
Cheers for fears!

(*) o autor é politicamente incorreto

 

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