Guardiões do território nacional, Exército, Marinha e Aeronáutica também assumem funções de governo, como combate à dengue e o ensino a crianças
Por Fernanda Odilla - Da equipe do Correio

"Exército neles!!, exibia a faixa erguida durante uma manifestação em frente ao Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar Leste do Rio de Janeiro. O protesto foi em 2006, mas o governo federal tem seguido à risca as palavras de ordem até hoje. O Exército se transformou na solução para todas as falhas da máquina pública, atesta o pesquisador em assuntos militares, Expedito Carlos Stephani Bastos, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), convencido de que há o ingrediente eleitoreiro na mobilização das Forças para missões que caberiam a outros setores do poder público. Os homens treinados para defender o Brasil em conflitos internacionais têm feito de tudo um pouco. Combatem epidemias, tapam buracos e pavimentam rodovias, ajudam desabrigados, ensinam computação a crianças, constróem cisternas e distribuem água potável, apagam incêndios e até colaboram com a Receita Federal na guerra contra o contrabando.

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Amanhã, as Forças Armadas vão protagonizar uma cena que está se transformando em rotina no Brasil, quando os 1,2 mil oficiais e soldados desembarcarem no Rio de Janeiro para atuarem em três hospitais de campanha e outros 500 homens do Exército, Marinha e Aeronáutica começarem o treinamento para combater o mosquito transmissor da dengue. É um desvio de função que só faz sentido em momentos de calamidade. Não pode virar rotina porque atrapalha o treinamento da tropa para situações de conflito, avalia o senador Heráclito Fortes (DEM-PI), presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado.

O Exército, por meio de nota, informa que atualmente milhares de homens de 28 organizações militares estão envolvidos no que chamam de ações subsidiárias. Disciplinado, esclarece que essas atividades estão entre as missões constitucionais atribuídas ao Exército Brasileiro. Podem ser realizadas apenas com meios orgânicos da Força Terrestre, principalmente em situações emergenciais, ou em apoio a órgãos de diversos setores e níveis de governo, através de celebração de convênios, conforme cada caso, explica a Força.

Entre as especialidades que os soldados têm exibido, além de ajudar no combate à dengue e à febre amarela - missão que assumiu no Distrito Federal e Entorno, no Rio Grande do Sul, no Mato Grosso do
Sul e no Rio de Janeiro - e colaborar com municípios destruídos por fortes chuvas, está o trabalho tal qual o das empreiteiras. Com 11 batalhões especializados espalhados pelo país e cerca de seis mil militares trabalhando na construção e recuperação de estradas, pontes, viadutos, portos e aeroportos, o Exército rejeita com veemência o título de empreiteira. Atualmente, soldados estão envolvidos com a pavimentação de rodovias em Goiás e no Rio Grande do Sul. O governo federal não esconde a predileção pela mão de obra militar, até 15% mais barata e bastante eficiente.

É uma prova cabal da falência da máquina pública. As iniciativas merecem aplauso pelo caráter de assistência social, mas pode ser até desgastante para a imagem do Exército, observa Heráclito Fortes. Para o professor da UFJF, o que o Exército faz é mera improvisação. Como o setor é hierarquizado, as Forças cumprem a ordem que vem de cima. Vai dar resultado porque o são eficientes, mas vai apenas amenizar o problema, pondera Expedito. O professor vê a mobilização da Força também como jogada política. Lula aparece como salvador da pátria e o ministro Nelson Jobim exibe eficiência pensando possivelmente em eleições futuras, avalia o professor. O ministério da Defesa preferiu não comentar as declarações.

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