Documento apreendido em 1973 mostra como era o planejamento estratégico do PCdoB
Por Vasconcelo Quadros -Brasília

Mantido em sigilo durante 35 anos, Estudo do PC do B para Implantação da Guerrilha Rural no Araguaia - 1968/1972 é o mais precioso documento para explicar a conspiração do silêncio que que resultou no massacre de 58 ativistas comunistas mortos e desaparecidos entre 1972 e 1975 na região do Araguaia. Retirado clandestinamente dos arquivos do Centro de Inteligência do Exército (CIE) de Belém em 1985 pelo tenente da reserva José Vargas Jiménez, o texto revela que a viabilidade da luta armada organizada pelo PC do B para a tomada do poder assustou o governo militar e acabou determinando a reação das Forças Armadas pelo aniquilamento do movimento subversivo.

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O documento revela uma análise realista e profunda das condições para a luta armada e demonstra que o PC do B tomou as medidas concretas para dominar o Bico do Papagaio: treinou seus principais quadros na China no exato momento do golpe militar, escolheu uma área inóspita, isolada e hostil ao adversário, preparou com pelo menos seis anos de antecedência um forte trabalho de massa junto a uma população paupérrima e abandonada, e previu com precisão quase cirúrgica a reação que resultaria no fim trágico do sonho revolucionário.

"As forças armadas da reação terão como objetivo estratégico cercar e aniquilar as forças guerrilheiras e sua tática estará a serviço de tal objetivo", diz um dos trechos do documento, apreendido durante o ataque do Natal de 1973, onde foram mortos oito militantes, entre eles o comandante da guerrilha, Maurício Grabois. Com ele os militares encontraram toda a documentação da guerrilha. Escrito, provavelmente, pelo próprio Grabois, o texto previa, inclusive, quais as rotas – por rios e por terra – poderiam ser usadas para asfixiar a guerrilha, mas avaliava que havia condições para crescer. "Tudo indica, portanto, que através de uma luta dura, persistente e prolongada, as forças guerrilheiras, aplicando corretamente as leis da guerra popular e uma política justa, conseguirão criar áreas liberadas e transformar-se-ão em exército regular", diz o documento.

O plano foi produzido antes de a guerrilha ter sido atacada, o que ocorreria em abril de 1972, num momento em que os três destacamentos do PCdoB, com 69 integrantes, já estavam instalados na região. No final de 1972, depois de nove meses de combates e apesar de 18 baixas (11 militantes mortos e outros sete presos), a guerrilha sobrevivera e se enraizava, conforme seus dirigentes haviam planejado.

Êxito estratégico

O PC do B preconizava esse resultado: "A sobrevivência das forças guerrilheiras no início da guerra popular constitui-se por si só um êxito estratégico (...) e possibilita condições básicas para que se alcance a vitória na guerra popular", diz outro trecho.

O documento também revela que, ao contrário da criticada ausência de estratégia militar, a guerrilha tinha um plano de recuo, – "na imensidão da mata não habitada" –, previa a incorporação de moradores à guerrilha (no final cerca de 20 camponeses viraram combatentes) e apostava no potencial da região para atrair outras organizações para a luta armada.

"A região é rica em recursos minerais, de alimentação, em terras férteis e permite a organização de todo um serviço de logística para uma força irregular relativamente numerosa. Dependendo das circunstâncias da luta, afluirão para a região revolucionários de todas as partes do país, a fim de ingressarem nas Forças Guerrilheiras (...). A mata, embora generosa com os guerrilheiros adaptados à região e que a conhecem bem, será madrasta para o soldado da reação, acostumado à placidez dos quartéis", acrescenta o planejamento do PCdoB.

Um inimigo que possuía recursos ilimitados

Brasília


Tudo o que o PCdoB previa até o início dos combates no Araguaia se confirmou. O plano não contemplava, no entanto, a possibilidade de as Forças Armadas, com sinal verde do governo militar para aniquilar o movimento e com recursos ilimitados para realizar as duas operações de maior vulto (a Sucuri e a Marajoara) se utilizar da mesma estratégia de guerra irregular utilizada pela guerrilha: a infiltração de agentes de informação disfarçados de posseiros e, no final, quando a área já estava esquadrinhada e cercada, o golpe final com a utilização de tropas descaracterizadas, mas especializadas em combates na selva.

O grande golpe contra as pretensões comunistas se deu no Natal de 1973 com o extermínio do comando guerrilheiro na Serra das Andorinhas, seguido de uma caçada implacável e sem trégua. Presos ou atingidos, os guerrilheiros foram sendo mortos um a um.

Os documentos secretos revelados pelo tenente Vargas no livro Bacaba- memórias de um guerreiro de selva da Guerrilha do Araguaia demonstram, como ele mesmo afirma no relato, que a última das operações, a Marajora, foi "a fase do extermínio da guerrilha". Os dois planos militares mais importantes faziam uma distinção entre moradores e guerrilheiros: os primeiros eram alvo debusca e apreensão, enquanto em relação aos guerrilheiros a ordem era de captura e destruição, uma senha para a execução. O documento que revela o plano do PCdoB entre 1968-1972, também anexado ao livro, é inédito e sua existência era omitida pelos militares e desconhecida no próprio partido. Se por um lado o documento demonstra que os comunistas tinham segurança na estruturação de um grupo beligerante semelhante ao que representavam no início as Forças Armadas da Colômbia (Farc), por outro revela que o comando militar tinha consciência clara de que não conseguiria debelar o movimento numa luta regular. Já haviam tentado, sem sucesso, por meio de manobras e ataques convencionais.
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